PSAPPHA –
SAPPHO DE LESBOS - A DÉCIMA MUSA
Autor:
Newton Silva
Um
artigo sobre a Uma das maiores
escritoras
e poetisas de todos os tempos,
combinando
história e literatura.
Há mais de
600 antes de Cristo, não se sabe ao certo se foi 630 ou 612, nasceu
na cidade de Eresos, situada na ilha de Lesbos, Sappho, uma pioneira
na educação e desenvolvimento de pessoas (especificamente de moças
da Aristocracia de Lesbos), um gênio da literatura grega e uma das
maiores poetisas do todos os tempos.
Mas por que
esse nome Lesbos? Onde fica essa ilha? E como foi que surgiu esse
ambiente e esse caldo de cultura humana que gerou, desenhou, pintou e
esculpiu essa musa e gênia da poesia universal?
Lesbos é
uma ilha, cujo nome sobreviveu a todos os conquistadores e à
história até os dias de hoje, conservando-se inalterada em seu
nome. Atualmente pertence a uma prefeitura da Grécia. Fica situada
no Mar Egeu, defronte à Anatólia, na Ásia Menor.
Desde tempos
remotos, tem sido muito visitada por cientistas sociais
(historiadores, antropólogos, sociólogos, arqueólogos, etc.),
estudiosos da literatura universal, poetas, poetisas e turistas.
Em tempos
mais recentes tem sido também bastante procurada por lésbicas,
similares e simpatizantes, sejam militantes de organizações, grupos
e movimentos que defendem os direitos dos homoeróticos ou não. E as
cidades mais visitadas, nesse caso, são Eresos, cidade do seu
nascimento, e Metilene, cidade onde viveu a maior parte da sua vida,
na época a capital cultural do mundo.
Desde o
século XIX, muitos estudiosos e escritores da psiquiatria,
psicopatologia, psicologia, psicanálise e sexologia quando dedicam
um capítulo ao homossexualismo feminino, se referem a Sappho como
exemplo mais ilustre e alguns chegam a citar trechos do que sobrou
dos seus poemas, que parecem corroborar suas hipóteses sobre uma das
orientações sexuais dela. Saliente-se que é uma visão muito
limitadora e reducionista do que foi essa essa grande mulher, pois a
grandeza dos gênios não cabem em nossas caixinhas e nem pode estar
subordinada à fofoca histórica.
E foi assim
que criaram os termos Safismo, para denominar o homossexualismo
feminino, e sáfica para identificar a militante. Mas outros
preferiram cunhar o termo lesbianismo e lésbica, com a mesma
finalidade, numa alusão à terra natal de Sappho e talvez ao
adjetivo pátrio respectivo. Só que cometeram um engano
considerável, penso, porque o adjetivo pátrio de uma mulher que
nasce na ilha de Lesbos, não é lésbica e sim, lésbia, pelo menos
é o que está no grego original.
Lesbos, na
antiguidade histórica, fazia parte da antiga Hélade, a grande nação
helena formada pelas comunidades autônomas que evoluíram para as
cidades-estado soberanas e independentes, ratificada pelas imensas
afinidades culturais, religiosas, históricas e principalmente
linguísticas que os uniam. A Hélade depois de seus períodos de
formação, ascensão, apogeu e decadência foi conquistada primeiro
pelo Império Macedônico, que por sua vez implodiu após a morte de
Alexandre Magno, e depois pelo Império Romano, que num ato de
extrema violência política e cultural rebatizou a Hélade como
Grécia e os helenos como gregos, talvez até com intenção
chistosa, mas o nome pegou e assim como Lesbos sobreviveu à
história.
A Grécia da
idade antiga, situada a sudoeste da Europa, tinha um território rico
em variedades geográficas, pois era composta ao norte por uma Grécia
continental (com as regiões: Tessália, Étiólia e Beócia, na
verdade situadas na grande península balcânica); logo abaixo por
uma Grécia Peninsular, as famosas penínsulas Peloponeso e Ática
(com as regiões, Messênia, Arcádia, Lacônia e Argólida); por
uma Grécia Insular semicircundante, onde a oeste, ficavam as ilhas
do Mar Jônico (com destaque para Zacinto, Cefalênia, Lêucades e
Ítaca, terra nativa do famoso Ulisses e da sua Penélope), ao sul,
as ilhas do Mar Mediterrâneo (com relevância para Rhodes, com
direito ao seu Colosso, Cárpatos e Creta, famosa pela lenda do
Minotauro), e ao leste, as ilhas do Mar Egeu (com destaque para as
ilhas Quios, Samos, Delos, famosa pela primeira Liga de países
helênicos, Arquipélago Cíclades, Eubéa e Lesbos, a terceira maior
ilha da nação helena); finalmente por uma Grécia colonial,
constituída pelas povoações e cidades feitas em terras além-mar
ou bem distantes, como a Magna Grécia ao sul da península itálica,
a Jônia, nas costas da Anatólia, Ásia Menor, e outras ao norte da
África.
Provavelmente
chegaram até o sul da península ibérica, razão por que surgiu a
lenda de que Hércules, o herói nacional dos dórios para uns e dos
tebanos para outros, considerado um semideus e homem mais forte de
todos os tempos, separou no braço a Europa da África, criando o
estreito de Gibraltar. Curiosamente, as margens daquele estreito, que
mais parecem colunas, são chamadas até hoje de Colunas de Hércules.
Sim, mas
quanto a Lesbos? Quais foram os antecedentes que propiciaram a Lesbos
se tornar uma grande potência econômica, marítima, política e
cultural, sendo, provavelmente, aquela que foi a subnação grega que
desfrutou por mais tempo de maior estabilidade, soberania, autonomia
e independência, chegando a ser referência de saber, ciência e
cultura durante um longo período da história helênica, só
perdendo esse posto, muitos séculos depois, para a Atenas de
Péricles?
Isto nos
leva a viajar até uns 30 séculos antes de Cristo, para encontrar a
grande península balcânica, com todo aquele ambiente geográfico já
descrito, tão próxima da Mesopotâmia, justamente o lugar onde se
desenvolveram as primeiras e mais e avançadas civilizações da
antiguidade histórica, que eram cosmopolitas, pois concentraram e
exportaram o saber mundial, por muitos séculos, em cima de
andarilhos, cavalos, jumentos, camelos e embarcações.
Esse
conjunto de territórios helenos, digo, gregos, era habitado por
seres seminômades que viviam de caça, pesca, colheita de frutos
vegetais e uma insipiente agropecuária, ainda na idade da pedra
polida, ou neolítica. Eram os pelágios ou pelasgos, que talvez
fossem autóctones ou migrantes que lá se assentaram. Essa vida
tranquila e bucólica deles um dia iria acabar.
Enquanto
isso, nas planícies eurasianas, situadas entre o Mar Cáspio e o Mar
Negro, viviam, em numerosos genos, clãs e tribos, os povos
indo-europeus, que chegaram a constituir uma grande nação informal,
afinizados pelas mesmas matrizes culturais, históricas, religiosas e
principalmente linguísticas.
Esses povos
são aqueles que falavam e ainda hoje falam sânscrito ou línguas
derivadas do sânscrito.
Não é uma
coisa fantástica descobrir-se que as línguas sintéticas como as
anglo-germânicas, línguas analíticas como as neolatinas e línguas
escandinavas, persas, indus e gregas têm a mesma origem?
O fator
cultural é o que mais pesou nessa afinidade vez que eles eram
constituídos do ponto de vista físico por uma grande diversidade de
etnias caucasoides ou brancas (por isso encontramos grandes variações
de cabelos, cor dos olhos, altura, formato de crânio, tipos de
rostos, matizes de pele, etc.).
Eram nômades
ou seminômades e por onde passavam, guerreando ou não, interagiam
com outros povos e assimilavam muitas técnicas de agricultura e
pecuária, construção civil e tecnologias militares.
E a medida
que iam em grandes levas de migrantes se afastando do grupo de
origem, mudando de clima, ambiente geográfico e de alimentação,
miscigenando-se e sofrendo influências culturais de outros povos
não indo-europeus, iam sofrendo alterações e variações na
religião, fenotipia, cultura, comportamentos e língua.
Parece que
em dado momento da sua história, os povos indo-europeus
protagonizaram uma espécie de diáspora causada talvez pelas
guerras, escassez de pastos e de caça e/ou excesso populacional. Um
grupo foi em direção à Índia e ao Irã (Pérsia), outro avançou
para o norte da Europa e outro chegou à Península Ibérica.
Mas o grupo
de povos que mais nos interessa foi o que migrou do norte da Europa
para a península balcânica em sucessivas levas, guardando
intervalos de séculos. Dentre elas, quatro se destacariam como
formadores da nação e civilização helênicas ou futura Grécia.
Foram eles, os Aqueus, Jônios, Eólios e Dórios ou Dóricos.
Entretanto,
muito antes deles chegarem ao seu destino, povos na idade do bronze,
procedentes da Anatólia, portadores dos saberes e tecnologias
mesopotâmicas e egípcias, migraram por mar e fizeram, há uns 3000
anos A.C., colônias em diversos pontos da Europa.
Nos balcãs
e suas imediações ocuparam Creta, Chipre, algumas ilhas das
Cíclades e algumas regiões orientais da Grécia continental. Creta
foi a mais bem sucedida daquelas colonizações. Os nativos foram
vencidos e em sua maioria fugiram para regiões mais selvagens das
ilhas ou do continente.
Os novos
senhores desenvolveram uma civilização avançadíssima para a
época, construindo palácios (de muitos pavimentos, grandes
dimensões, protegidos por engenhosos labirintos, a exemplo de
Knossos, Festos, Máli e Zakros), residências, ruas e equipamentos
públicos e privados bem projetados do ponto de vista arquitetônico
e decorativo, oferecendo segurança, beleza, conforto e saneamento
básico.
E assim
surgiu a chamada civilização Cretense ou Minoica, que teve dois
momentos de apogeu, o primeiro foi encerrado por uma catástrofe de
causa desconhecida que destruiu as cidades de Creta e as soterrou.
O segundo
foi reconstruído sobre suas ruínas, destacando-se o reconstruído
palácio de Knossos, com seu famoso labirinto, que inspirou a lenda
do minotauro e seu duelo com Teseu.
Sobre os
labirintos, é bom que se diga que os reis cretenses os incorporaram
aos seus projetos arquitetônicos de palácios, como forma de se
defenderem dos invasores, pois estes para chegar até o rei tinham
que passar por um dos maiores e mais difíceis testes de inteligência
que já se inventou.
Nenhum homem
sozinho conseguiu sair deles. Se a lenda de Teseu tem algum fundo de
verdade é porque ele trabalhou em equipe com Ariadne, que era muito
mais inteligente do que ele.
Todavia, o
grande destaque na história como empreendedor, construtor e
administrador ficou para o Rei Minos, por isso a civilização
cretense ficou conhecida como Minóica e Minos se tornou uma dinastia
de muitos reis Minos.
No seu
conjunto, a civilização cretense confirmou a sua superioridade
naquele momento histórico pelas seguintes realizações e sucessos:
- Política externa de boa vizinhança com todas as nações e países, priorizando as relações comerciais;
- Construção e Operação da maior e mais capacitada frota mercante;
- Comércio exterior bem administrado e acima da concorrência;
- Industria avançada, com divisão do trabalho e produção em série e tecnologia de ponta na época;
- Gestão da importação de matérias-primas do Chipre, das Cíclades e da Sicília e exportação de produtos industrializados de forma tão competente que os tornaram uma potência econômica;
- Administração de materiais, controlando os estoques do que produziam, compravam, vendiam e exportavam; organização administrativa, com planejamento e controle dos investimentos e gastos públicos, com a devida fiscalização e prestação de contas pelos gestores dos assuntos de estado, onde as decisões eram tomadas em cima de informações e números reais, por isso que realizaram tanto;
- Invenção de uma forma de escrita, cunhada em argila e inspirada nos hieróglifos egípcios, chamada Escrita Linear A, que até hoje não foi decifrada e que provavelmente foi a origem da escrita grega na fase histórica;
- Arquitetura e engenharia civil capaz de construir edifícios de mais de um pavimento que desafiaram o tempo e chegaram até nossos dias, só passíveis de destruição por grande terremotos, vulcões e tsunamis, salientando que os projetos arquitetônicos dimensionavam os ambientes de acordo com as suas finalidades, razão porque ofereciam funcionalidade, racionalização do trabalho e qualidade de vida;
- Administração dos conflitos e promoção da estabilidade sociais, através de uma equilibrada distribuição de terras e de renda, antecipando-se aos sonhadores e sociólogos do bem estar social e do socialismo democrático ou não;
- Valorização das artes e da cultura, prova é que, tinham vida cultural intensa, contemplando:10.1. Teatros ao ar livre.10.2. Dança acompanhada de cantos e instrumentos musicais (as cítaras por exemplo).10.3. Esculturas de tamanhos variados, inclusive em miniatura com diversos animais e outros temas.10.4. Pinturas de natureza viva e em movimento (flores, florestas, paisagens bucólicas, paisagens marinhas, touradas, pássaros voando, polvos e peixes nadando, etc,), precursando o fauvismo, impressionismo, expressionismo e outros movimentos nas artes plásticas, eles já captavam a beleza do movimento muito antes de Degas.10.5. Vestuário semelhante ao do Século XIX, só faltaram as valsas vienenses.10.6. Artesanato produzindo peças bem elaboradas complexas, em cerâmica, ouro, prata e bronze (isto quer dizer que as mulheres cretenses de então andavam belíssimas, bem vestidas, bem adornadas com joias e moravam em casas confortáveis, bem decoradas, dotadas de rede de esgotos e água encanada e valorizadas com obras de arte).
11)
VALORIZAÇÃO DA MULHER - Talvez fosse pelo fato de a
padroeira de Creta ser SELOS, a GRANDE-MÃE, (uma deusa-mulher com
valores femininos, senhora do bem e do mal, da fertilidade e da
maternidade, da terra e da humanidade), a mulher era muito
considerada, venerada, respeitada e valorizada, gozando de muita
liberdade e autonomia, ou seja, praticamente de todos os direitos de
cidadã, inclusive o de exercer cargos públicos e religiosos,
trabalhar no comércio e nas fábricas, organizar e participar de
festas populares, ter atividades culturais e praticar esportes
radicais, como caça, artes marciais e touradas. A Mulher Mnoica foi
a grande precursora das grandes mulheres independentes, criativas,
multitalentosas e empreendedoras como SAPPHO, que marcaram a história
da humanidade e foi impossível torná-las invisíveis.
Uma verdade
muito positiva parece ser vislumbrada pela civilização minoica:
quando uma sociedade é guiada espiritualmente por uma deusa-mãe,
uma mulher elevada à categoria de deusa com valores femininos, ela
se torna um ambiente mais prazeroso e agradável de se viver, pois,
oferece muito mais qualidade e valorização da vida, há bem mais
justiça, paz e inclusão social, a cultura fica bem posicionada na
sua escala de valores e busca sempre uma solução pacífica para os
conflitos de interesse.
Justamente o
oposto do que geralmente acontece numa sociedade que tenha como
mentor espiritual um Deus ou uma Deusa com valores masculinos, como
foi o caso de Atenas, em que as mulheres foram cidadãs de segunda
classe ou nem foram cidadãs, pelo contrário, foram niveladas a bens
semoventes (bois, ovelhas, jumentos, cabras, etc.), sem direito a
liberdade ou autonomia, consideradas dependentes que nunca chegavam à
maioridade, e reduzidas a serviçais domésticas e reprodutoras, e só
foram valorizadas por isso ou muitas vezes nem por isso.
O governo
era exercido de forma teocrática por um rei que podia ser líder de
uma aristocracia comercial ou um tirano, concentrando em suas mãos
os três poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e
que, além de ser o supremo juiz, era o supremo sacerdote.
A
civilização cretense, mesmo quase destruída territorial, politica
e religiosamente, era tão forte em suas convicções e princípios
que dominou culturalmente os seus vizinhos, conquistados e
conquistadores e influenciou toda a civilização grega com sua
superior capacidade tecnológica, industrial, cultural, artística,
agropecuária, arquitetônica, administrativa, comercial, náutica e
artesanal, só ficando a dever na área militar, pois não saiu da
idade do bronze e foi atacada por adversários infinitamente mais
ignorantes, inclusive o seu último invasor, os dórios, que já
estavam na idade do ferro.
As cidades
da Creta Minoica só foram superadas na qualidade e na quantidade da
produção artística muitos séculos depois pela Atenas de Péricles.
Por isso, ouso salientar que se houve países gregos em que a mulher
teve liberdade e espaço para qualificar-se profissionalmente
(Esparta) e educacional, cultural e intelectualmente (LESBOS), com
certeza isso foi devido à influência da sociedade Minoica,
principalmente do “mau” exemplo da Mulher Minoica. Sem essa
influência tão bem vinda, Sappho talvez chegasse a ser no máximo
uma boa reprodutora e senhora de escravos, confinada ao gineceu,
mirando-se no “exemplo das mulheres de Atenas”.
Enquanto a
civilização minoica dominava os mares Egeu, Jônio e Mediterrâneos
e territórios já citados, com destaque para Creta, a partir do
século XX antes de Cristo, aconteceram as imigrações daqueles
quatro principais povos que viriam mais tarde constituir a
civilização grega dos tempos homéricos, que marcou a história
como um fenômeno de cultura, imaginação e saber.
Primeiro
foram os Aqueus, em busca de pastos para seus rebanhos e terras
férteis, há dois mil anos A.C. Como não tinham cultura e nem
tecnologia de navegação fixaram-se na área continental e ao norte
da península do Peloponeso.
Era um povo
guerreiro que manipulava bem o cobre e sabia construir fortalezas
fortificadas, Tróia é o melhor exemplo disso. Expulsaram para as
montanhas os primitivos habitantes da região que viviam na idade da
pedra polida, os pelasgos (coitados dos pelágios, viviam de expulsão
em expulsão, tal como aconteceu e acontece com os nossos índios),
impuseram sua língua, culminando por formar as bases do idioma grego
que seria, posteriormente, adotado por toda Hélade.
Mais tarde
aproximaram-se dos cretenses pacificamente e estabeleceram com eles
importantes intercâmbios comerciais, culturais, artísticos,
científicos e tecnológicos e aprenderam a arte de construir
embarcações e navegar, tornando-se ora parceiros comerciais, ora
concorrentes, quebrando o monopólio comercial minoico na região
mediterrânea, sendo uma das causas iniciais da futura decadência
econômica de Creta.
Os Aqueus
tiveram a sabedoria de aprender tudo que puderam com os minoicos.
Fizeram questão de aculturarem-se e difundiram a cultura dos seus
parceiros por todas suas colônias no continente e nas ilhas gregas
que ocuparam, fundaram a cidade de Micenas, que foi o marco histórico
inicial da civilização creto-micênica.
A
civilização micênica foi uma reprodução respeitosa da
civilização minoica, até o primeiro método de escrita que
inventaram, a Escrita Linear B, foi baseado e inspirado na Escrita
Linear A, dos cretenses.
Por volta de
1400 A.C. os Aqueus aproveitaram o fato de Creta estar combalida pela
concorrência comercial, catástrofes naturais e guerras civis e
conquistou-a militarmente, encerrando uma longa era de independência
e civilização. Entretanto, pode-se dizer que os aqueus originais
desapareceram ao se fundirem biológica e culturalmente com os
minoicos e darem origem ao povo micênico e à civilização
micênica.
Só numa
coisa, os aqueus divergiram radicalmente da civilização cretense,
foi na religião. Destronaram a Deusa-Mãe minoica e conservaram seu
deus masculino como padroeiro protetor das suas sociedades políticas.
Isto quer dizer que mantiveram e até recrudesceram a família
patriarcal com a supervalorização do homem, a desqualificação da
mulher e o seu rebaixamento à condição de apenas um pouco acima
dos escravos.
Com seu
modelo machista de sociedade eles começaram a sinalizar para os
jônios, que viriam depois, como construir a mulher de Atenas. A
mulher propriedade do pai e depois do marido, destinada a ser
serviçal e apenas reprodutora, com status de mercadoria, nivelada
aos semoventes, proibida de alfabetizar-se, ter acesso à cultura e
exercer atividades fora de casa.
Assim. o
paraíso em que vivia a mulher minoica ruiu. A mulher mnoica, digo,
creto-micênica sofreu uma das maiores violências e opressões
culturais da história.
Felizmente,
as sementes da emancipação feminina que se refugiaram no âmago da
mulher cretense foram emergindo e silenciosamente contagiaram
primeiro a civilização micênica, e depois, séculos mais tarde,
toda civilização grega e quiçá universal.
Os micênicos
já na fase de expansão marítima fundaram muitas colônias no sul
da Itália, que vieram integrar a Magna Grécia. Fundaram cidades ao
norte do Peloponeso de onde saíram Menelau e Agamenon, dois grandes
heróis da guerra de Tróia, que também foi fundada por Aqueus. Na
verdade a guerra de Tróia foi um conflito entre aqueus da região
balcânica com aqueus da Ásia Menor.
Depois
vieram os jônios e se estabeleceram na península de Ática e no
Peloponeso e em diversas ilhas próximas da costa ocidental dos
balcãs, no Mar Jônico, como Cefalênia e Ítaca, a partir de 1200
A.C. Tinham características parecidas com os aqueus no que se
refere a estarem na idade do ferro, serem pastores e agricultores,
terem habilidades militares e capacidade para construir cidades
fortalecidas. Possuíam uma vantagem a mais, já estavam
familiarizados com a navegação e também sabiam lidar muito bem com
a cerâmica, o que tem levado muitos estudiosos a supor que eles
fizeram uma estadia na Ásia Menor, antes de emigrarem para a Grécia.
Fundaram
Atenas, que seria uma das mais poderosas, cultas e evoluídas
cidades-estado da Grécia. Situada na Ática, ficava numa posição
estratégica bastante protegida, inclusive pela geografia, e fora da
rota dos mais violentos e bárbaros invasores que a Hélade conheceu,
os dórios.
Os demais
jônios, quando se viram ameaçados de extinção pela invasão dos
dórios não tiveram dificuldades de emigrar para diversos pontos da
costa mediterrânea, para ilhas do Mar Egeu e principalmente para a
Anatólia, na Ásia menor. Foi lá que fundaram a Jônia, onde
floresceu a escola filosófica jônica e, na cidade de Mileto,
Thales, um dos grandes filósofos gregos, previu pela primeira vez na
história um eclipse solar, com precisão matemática. E ainda no
Mar Egeu aportaram e se estabeleceram na ilha de Lesbos. Metade da
ancestralidade de Sappho era jônia, que sofreu influência da
civilização minoica e micênica e a outra metade era eólia.
Os eólios
após migrarem das planícies eurasianas onde viviam os povos
indo-europeus, estacionaram um bom tempo na Macedônia e na Tessália
norte da região balcânica. Deram uma inequívoca demonstração de
poder por dominarem essas regiões e as ilhas a nordeste da Grécia
por muito tempo e não foram alvo da carnificina dórica. Eram
compostos de muitas tribos que foram se diferenciando com sua
evolução, porém mantendo a religião e o dialeto que mais tarde
seria chamado de grego arcaico, características em comum que
denunciavam ter a mesma origem.
Quando
resolveram emigrar, chamaram a atenção pelo fato de não terem um
foco migratório definido como os aqueus, jônios e dórios. Eles
migravam em grandes e pequenos grupos para as mais diversas direções,
por isso foram encontrados por toda Grécia e vários pontos do
Mediterrâneo. Os onipresentes eólios estavam não só no norte
continental e nas ilhas do nordeste, como também em Beócia, Épiro,
África, Ásia Menor, Tenedos, diversas ilhas do Mar Egeu, Chipre,
Grécia Central e nas regiões abandonadas pelos jônios e
aqueus-micênicos que fugiram da guerra de extermínio dos dórios.
Como eram os
mais viajados e viajantes desses grupos indo-europeus, foram grandes
compiladores das culturas com que entraram em contato, aculturando-se
e aculturando. Agregaram mais valor ainda quando incorporaram a
cultura creto-micênica, que os aqueus disseminaram por todas as suas
áreas de influência, difundindo-a também por todos os sítios da
Hélade e muito mais além em que pisaram.
Enquanto
espalhavam o idioma grego primitivo, os eólicos foram um fenômeno
de habilidade diplomática por não se envolverem em guerras com os
demais povos formadores da Grécia, construindo as sociedades mais
estáveis e duradouras de que se tem notícia naquele período
histórico. Foram admiráveis outrossim pelo valor que davam à
cultura e ao saber, cultivando-os de forma enciclopédica,
Enquanto os
eólios prosseguiam na sua saga migratória, vamos invocar a
Mitologia para contar uma possível história da terceira maior ilha
da Grécia, antes que eles cheguem.
Estamos na
região nordeste do Mar Egeu. Nessa ilha encantada, ornamentada de
praias, mares e paisagens idílicas, reinava Xanto, filho de Trippas,
rei dos Pelasgos de Argos. Todavia o grande dilúvio de Deucalião,
exterminou grande parte da humanidade, inclusive os habitantes de
Lesbos, deixando a ilha deserta. E mais uma vez lá se foram os
pelágios...
Macareus,
filho de Crinacus, neto de Zeus, natural de Olenus reocupou a ilha e
estabeleceu ali o seu reino, constituído em sua maioria por jônios.
Pouco tempo
depois, seguindo orientação de um oráculo, aportou na ilha,
Lesbos, liderando um numeroso grupo de eólios e ali se estabeleceu
pacificamente. Lesbos? Quem era esse homem? Lesbos foi um príncipe,
filho Lapithes, rei da Tessália e neto de Eolo (aquele que se
tornaria o Deus dos Ventos) e bisneto de Hipotes. Se avançarmos
para a raiz das árvores genealógicas desses heróis descobriremos
que Zeus pulou tanto a cerca que por isso todos descendem dele,
frutos das suas aventuras com as outras deusas ou com maravilhosas
mortais.
O príncipe
Lesbos aliou-se ao Rei Macareus, casando-se com a filha dele
denominada Methyma. Tornou-se seu sucessor e deu ao reino e ilha o
nome de Lesbos em homenagem a si mesmo, revogando nomes anteriores e
disposições em contrário.
Macaréus
por sua vez preferiu homenagear a sua outra filha, Metilene, fundando
uma cidade e dando-lhe o nome dela. Metilene se tornou a princípio a
capital do reino, e mais tarde a capital intelectual daquele período
por muito tempo. O reino de Lesbos prosperou e muitas cidades
satélites foram criadas em torno da capital, dentre elas Eresos.
Como se vê,
o nome Lesbos não tem nada a ver com homossexualismo feminino,
historicamente falando. Em tempos bem mais recentes um pequeno grupo
de cidadãos lésbios entraram com uma ação no Tribunal
Internacional de Haia para proibir o uso de todas as palavras
derivadas de Lesbos (como lésbica, lesbiana, lesbianismo, etc.) para
significar, vincular-se e referir-se ao homossexualismo feminino.
Para o bem
das mulheres e felicidade geral da nação Lésbia, o seu povo elegeu
como guia e padroeira a Deusa Afrodite, uma deusa-mulher com valores
femininos, protetora da família, da maternidade e da fertilidade e
promotora do amor, muito semelhante a Selos, a deusa-mãe da
civilização cretense.
Bem
diferente da maioria dos reinos gregos, em Lesbos as mulheres da
classe dominante (aristocracia) tinham vez e voz, eram respeitadas,
bem tratadas, tinham acesso à cultura e eram muito amada pelos pais,
que primavam por ter filhas bem prendadas, educadas e cultas para
conseguirem os melhores maridos, que segundo o ponto de vista deles
tinham que ser bons aristocratas, guerreiros, cavaleiros e ao mesmo
tempo cavalheiros.
Não
chegaram à plenitude de cidadania como aconteceu com a mulher mnoica
e nem tiveram delegação para cuidar do comercio, da agricultura, da
indústria, das artes militares e da gestão pública como as
mulheres de Esparta (mas que em compensação eram praticamente
analfabetas integrantes de povo semi-bárbaro de cultura mais oral do
que escrita).
Mas, as
lésbias tinham algo de muito valor que era o acesso ao estudo e à
cultura e quantos às artes eram tanto apreciadoras como atrizes.
Entretanto a educação era ministrada dentro das próprias casas por
professores ou professoras, que embora sábios e detentores de vasto
conhecimento eram geralmente escravas e os saraus de música, poesia,
oratória, dramatização e dança eram feitos em família e no
máximo reuniões restritas com as moças e senhoras da aristocracia
Lésbia.
Todavia
também havia festas coletivas na alta sociedade em que as jovens
participavam e havia uma certa liberalidade com relação aos namoros
e amizades coloridas, afinal era o território de Afrodite. Elas
tinham o direito de ir e vir e de dialogarem, conviverem e travarem
amizades com os homens da mesma classe, livremente e em público.
Seriam comparáveis às baladeiras de hoje.
É preciso
lembrar que as sociedades gregas de um modo geral tinham uma cultura
patriarcal, fascista e machista em que a mulher grega era cidadã de
terceira classe, só considerada superior aos escravos, aos de classe
social inferior e aos estrangeiros. E que, não obstante, os gregos
de um modo geral tinham orientação sexual múltipla e variável
quanto a objetos e papéis. A bissexualidade era o mais comum e os
amigos se tratavam com muita cordialidade e carinho, com muito
contato físico. O sexo não era visto com as lentes da civilização
judaico cristã.
Era comum
que os adolescentes fossem iniciados sexualmente pelo seu educador ou
mestre militar mais velho e até os 18 anos vivenciasse o papel de
homossexual masculino passivo. Após essa idade eles ingressavam no
serviço militar e alternando os papéis e culminavam por se tornar
um iniciador dos mais jovens, passando a ser ativos (por mais que
isso seja para nós um absurdo de pedofilia aprovada socialmente, era
a cultura deles, era o paradigma que os norteavam). Não existia a
figura da “Bicha Louca”, todos eram másculos na atitudes, no
falar e no vestir e eram guerreiros valentes e exímios matadores.
É natural
que homens que passavam tanto tempo juntos em viagens marítimas ou
em guerras sucessivas e tão pouco tempo com as mulheres, só
entendiam de homens e seus vínculos emocionais provavelmente
envolveriam homens em sua maioria.
O caso mais
radical foi o de Atenas em que os homens consideravam-se tão
superiores às mulheres que só viam as mulheres como objetos sexuais
para luxúria ou reprodução, mas sem qualquer envolvimento afetivo,
afinal ela era na visão deles um ser inferior, quase um animal. Foi
daí que surgiu a expressão “amor grego”, significando que o
homem era tão superior que só podia amar outro homem, por isso
preferiam estar na companhia deles todo tempo que pudessem.
Não
obstante, todos os homens eram obrigados a se casar e ter filhos, dar
continuidade à sua linhagem patriarcal e quem fugisse desse dever
sofreria sérias consequências penais. Aqueles que se compraziam
demais na companhia masculina, principalmente em Atenas, adiavam o
máximo seus casamentos. E ainda houve um momento da história de
Atenas em que os cidadãos aprovaram em assembléia o abrandamento da
Lei, tornando a obrigação de casar atribuída a apenas um dos
filhos de uma família, geralmente o mais velho.
Já em
Esparta, a visão era eugênica e tudo estava subordinado ao
aprimoramento biológico dos espartanos. Por isso, eles matavam os
bebês portadores de deficiência física.
O Estado
através de uma instituição formada por profissionais de
adestramento assumia a educação das crianças a partir dos sete
anos. Os meninos partir dos doze anos eram deixados sozinhos na
selva, desarmados e sem provisões, com a missão de sobreviverem e
encontrarem o caminho de casa. Isso selecionava os mais fortes e
selvagens e os mais delicados e de constituição mais feminina eram
eliminados.
Aos 18 anos
os homens serviam ao exército e de lá só saiam aos 68 anos. Todos
se casavam, mas só podiam ver as esposas nas folgas e ninguém se
incomodava se quem estava de folga fosse generoso e até
engravidassem as mulheres dos companheiros de caserna. Todos os
filhos eram assumidos pelos maridos fossem biológicos ou não (não
havia a figura do “corno” se o ator da infidelidade fosse outro
espartano). Adultério punível com a morte seria uma espartana se
deitar com um escravo, um hilota, um sem classe ou um estrangeiro.
Só a esposa podia requisitar o marido para dormir uma noite extra
com ela.
Já os
atenienses tinham uma visão diametralmente oposta. Confinavam suas
mulheres às tarefas e ambiente doméstico, principalmente a um amplo
cômodo situado no fundo da casa, denominado Gineceu, reservado
exclusivamente para elas. Ali, elas podiam fazer tudo que quisessem e
ninguém estava interessado em saber o que. Elas só saíam para
participar de festas religiosas.
Enquanto
elas cumpriam suas missões de mães, domésticas e esposas,
condenadas à dependência total e sem direito à alfabetização e à
cultura, os homens discutiam se elas tinham ou não tinham alma.
Eram desonroso um homem falar com uma mulher em público.
Em
contrapartida havia um tipo de mulher que era livre, a prostituta.
Por incrível que pareça para as mulheres atenienses era muito mais
prazeroso serem “hetaíras” do que uma mulher de família. As
rameiras eram muito apreciadas pelos maridos atenienses.
No auge da
rivalidade, os espartanos faziam chistes com os atenienses dizendo
que eles não gostavam e tinham medo de mulher, por isso as tratavam
assim. Os homens de Atenas devolviam os insultos dizendo que os
espartanos eram maricas porque eram governados pelas mulheres.
pesar de
todo o preconceito contra a mulher Esparta e Lesbos eram exceções
por tratarem bem as suas mulheres. As mulheres de Esparta recebiam
treinamento militar pra defenderem a cidade na ausência dos homens.
Lesbos era uma exceção maior ainda porque suas mulheres
principalmente as da aristocracia além de bem tratadas, eram muito
valorizadas, tinham acesso ao letramento e à cultura e gozavam de
liberdade só superadas pelas mulheres Mnoicas.
Estou
fazendo essa digressão salientar que Sappho, jamais seria perseguida
e reprimida em Lesbos por causa de boatos a respeito da sua
preferência sexual. A causa foi outra como veremos a seguir.
Metilene
tornou-se um grande polo comercial e um dos maiores centros culturais
daquele período da história antiga, uma espécie de precursora de
Alexandria. Por muitos séculos foi governada por uma elite formada
de grandes proprietários de terras e grandes comerciantes, uma
aristocracia.
Essa
história de elites dominantes é muito antiga e embora tenha feito
cirurgias plásticas, tenha mudado muito o vestuário, o corte e o
formato dos cabelos e usado um infinidade de maquiagens, não mudou
muito e inspirou George Orwell a escrever A REVOLUÇÃO DOS BICHOS.
Foi
justamente por volta de 630 A.C. como já foi dito acima, que na
cidade de Eresos nasceu Sappho. O seu pai ao perceber que aquela
menina precoce e muito inteligente não seria feliz e nem arranjaria
bons partidos (maridos ricos, cultos, cavalheiros e guerreiros),
vivendo numa cidade rural, mudou-se com a família para a capital do
reino, Metilene, um grande centro urbano e comercial, que já estava
evoluindo para se tornar a capital cultural do mundo ocidental da
época.
Pouco se
sabe da sua mãe, mas ela deve ter feito sua parte para que ela se
tornasse uma mulher graciosa, educada e elegante e identificada com o
seu gênero. Mas o seu pai, seu grande herói e marca psíquica, foi
o maior entusiasta, patrocinador, gestor e fomentador da sua formação
escolar e porque não dizer acadêmica, colocando-a aos cuidados dos
melhores professores tanto na área intelectual como artística. E
ela fez jus a essa confiança, dedicando-se aos estudos com afinco e
buscando a excelência do desempenho escolar.
Foi assim
que ela adquiriu uma cultura pessoal enciclopédica como convinha a
todo bom grego, dominando os conhecimentos da Oratória, Música,
Dança, Poesia, Declamação, Canto, Esportes menos radicais (como
velejar em lagos, equitação, corridas, natação, etc.),
Literatura, Filosofia, Política, Embelezamento e Etiqueta femininas,
Religião (que nós ousamos chamar de mitologia porque não é a
nossa) e o que mais que fosse relevante para a época.
Nas horas
vagas, Sappho era inventora e chegou a construir uma Lira de 26
cordas, algo revolucionário em termos de tecnologia musical, com a
qual se acompanhava ao canto e o canto das suas amigas e acompanharia
mais tarde suas alunas.
Desde muito
jovem, Sappho escrevia caudalosamente em prosa e em verso e não só
fazia literatura artística, como também escrevia sobre os mais
diversos ramos do saber e discorria e debatia com conhecimento de
causa com homens e mulheres sobre qualquer assunto.
Entretanto,
segundo os fofoqueiros da história, não foi por isso que ela era
tão apreciada pelos rapazes, porém pelos seus dotes físicos, pela
sua graça de mulher e pelos seus poderes de encantar e seduzir.
Segundo
esses mesmos fofoqueiros ela teve até antes do exílio, uma vida
amorosa muita ativa, o que permite deduzir que ela assim como
Cleópatra deveria utilizar um método anticoncepcional eficaz, já
que era uma mulher fértil. Os rapazes e raparigas da época se
deram bem, com exceção de Alceu.
É
compreensível que uma mulher assim, apesar de estar numa sociedade
de costumes liberais, devia assustar muita gente e ser vista como
ameaça por ser muito avançada para o seu tempo. Ela incomodava
muito pela sua inteligência e militância política. É natural que
provocasse muita inveja e muito despeito nas populações masculina e
feminina e fizesse alguns desafetos.
Há e houve
escritores que tiveram um grande engajamento político, como Jorge
Amado e Graciliano Ramos, e expressaram isso na sua obra literária
(basta ler São Jorge dos Ilhéus, Jubiabá, Gabriela, Vidas Secas,
Memórias do Cárcere, etc. para verificar isso). Há outros como
José de Alencar que teve uma alta militância política e jamais
expressou isso em suas obras. Alceu amigo e eterno apaixonado por
Sappho era desses que fazia poesia pessoal e também poesia
política, já Sappho na sua poesia só cantou os encontros e
desencontros do amor, a maternidade, os dramas íntimos, a amizade, o
amor pela filha e seus amores incompreendidos pelas alunas, focou-se
na poesia subjetiva e intimista.
Sappho
também surpreende por ser além de escritora e poetisa, ser também
musa de muitos poetas da sua contemporaneidade, principalmente de
Alceu que dedicou inúmeras odes e serenatas à sua amada. Muitos
intelectuais contemporâneos dela e de muitos séculos depois não
conseguiam admitir em sua cegueira machista e seu absurdo preconceito
contra a mulher que ela fosse o gênio que foi, queriam insinuar que
sua obra era subversiva, e corruptora de costumes e por isso
procuravam minimizar e desqualificar a sua pessoa e a sua produção
literária.
Alguns
historiadores da antiguidade como Homero e e Estrabão, baseados em
esculturas imperfeitas deduziram que ela era baixa e magra e sem
atrativos físicos, numa palavra era feia. Nenhuma mulher realmente
feia poderia causar o “frisson” que ela causava nos moços mais
inteligentes e atraentes de Metilene e ela não viveria tão
assediada por frequentes propostas de casamento de bons partidos de
todas as idades, desde a adolescência até a sua velhice. Essa
polêmica em torno da beleza dela aconteceu em função de o padrão
de beleza feminina do gregos era o clássico, ou seja estava mais
para Vera Ficher, repleta de curvas e formas abundantes e generosas,
enquanto que Sappho estava mais para Deborah Seco, desenho perfeito,
formas econômicas e quase magra.
Então,
todos os indícios apontam que ela era linda e fascinante, dona de
uma beleza incomum. de tirar o fôlego e causar muitos suspiros. Ela
tinha o poder de mobilizar o lado masculino da maioria dos homens e
de algumas mulheres que a conheceram. Afinal, por aquelas paragens,
os homens até em público e as mulheres na intimidade costumavam
usar os dois com a maior sem cerimônia.
Sappho, não
havia ainda completado 18 anos, quando alguns estratos sociais,
constituídos de médios e pequenos comerciantes e agricultores,
planejaram e realizaram uma revolução bem sucedida.
Ficou
decidido não imagino ou imagino como, que o poder político deveria
ser exercido por apenas um único mandatário, um ditador, Pítaco.
Só ele dava pitaco em tudo e assim, aparentemente, o que era uma
oligarquia aristocrática, com um rei que era mais um par dos seus
liderados, tornou-se uma autocracia, uma ditadura.
Os
aristocratas bem comportados, continuaram com o poder econômico,
agora dividido com os novos ricos, as lideranças revolucionárias,
os mais insatisfeitos sofreram as punições proporcionais,
geralmente, o exílio.
Os novos
senhores do poder político eram mais ligados às questões práticas
da vida e não valorizavam a produção e o consumo de bens culturais
como os aristocratas e isso causou grande insatisfação na
juventude, que aliando-se a outros focos de resistência, conspirou e
fez uma tentativa de tomar o poder.
O levante
não deu certo e foi dominado pelas forças de Pítaco. Felizmente
ele era um ditador generoso e condenou os insurrectos ao Exílio na
cidade de Pirra, inclusive Alceu e Sappho, que só tinha então 19
anos, que pena tão novinha...
Alceu teria
sido o maior poeta de Lesbos, se não fosse ofuscado por uma estrela
de maior brilho, Sappho. Alceu, assim como sua musa, teve uma vasta
produção literária e poética e criou novos tipos de versos que
marcaram a história da poesia (os versos alceico e sáfico até hoje
fazem história na arte poética).
Durante a
viagem para o exílio, contam os fofoqueiros da história que ele deu
uma cantada nela, conforme se pode ver pelo diálogo que se segue
quase em forma de versos poéticos:
ALCEU:
- "Oh
pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso, queria dizer-te
algo, mas a vergonha me impede."
- SAPPHO: - "Se teus desejos fossem decentes e nobres e tua língua incapaz de proferir baixezas, não permitirias que a vergonha te nublasse os olhos - dirias claramente aquilo que desejasses.".
- Penso que ela foi muito mal cantada e o que ela respondeu tem a ver com ironia, pois os jovens daquela sociedade não tinham esse grau de empudoramento ou puritanismo, haja vista, como já dissemos, os costumes liberais que caracterizavam a sociedade em que viviam.
- Tenho muitas razões para acreditar que na verdade Alceu estava querendo era fazer uma proposta de casamento e isso não interessava a ela, naquele momento, já que tinha tantos sonhos de realização intelectual e não queria cair na rotina de uma mulher casada e com as responsabilidades de mãe. Ora, se ela era tão jovem, rica, cortejada e livre como iria querer se comprometer tão cedo?
- E ainda por cima Alceu era um tipo boêmio que não tinha um perfil de um bom marido, capaz de assumir uma família e honrá-la. Ninguém sabe o que houve de verdade entre eles, antes e depois dessa cantada, mas o fato é que ele lhe dedicou muitos poemas e outra manifestações artísticas de amor. Ela foi a eterna musa e paixão desse precursor de Castro Alves.
Contudo, Pitaco, meses depois, após analisar
criteriosamente a produção literária dos jovens intelectuais
rebeldes, principalmente a de Alceu e de Sappho, ficou muito
assustado com seus escritos e resolveu condená-los a novo exílio em
terras mais distantes, na cidade de Andros, situada na Sicília,
Magna Grécia, península itálica.
Lá, Sappho
conheceu um rico comerciante chamado Cercolas, com quem se casou.
Ninguém sabe se por amor ou por outro motivo, pois não consta que
Sappho fosse golpista, chegada a um golpe do baú, senão haveria uma
fila imensa de pretendentes idosos e ricos, loucos para trocarem suas
fortunas pela suprema ventura de viverem, nem que fosse alguns meses,
com ela e depois morrerem felizes para sempre.
O
fato é que Cercolas não aguentou o tranco e logo se foi, deixando
uma viúva alegre, mais rica e com o maior dos tesouros, a sua filha
Cleis. Cleis foi a sua maior musa, a quem dedicou a maior e o melhor
da sua produção poética. Sappho foi a Mãe que sobre Cleis, assim
se pronunciou:
"dourada
flor que eu não trocaria por toda a Lídia,
nem pela formosa Lesbos"..
Cinco anos
de exílio depois, a situação ficou mais tranquila em Lesbos e
Sappho retornou a Metilene, em clima de anistia. Logo tornou-se uma
líder de uma sociedade informal de senhoras cujo interesse era fazer
saraus de música, dança e poesia.
O sucesso
desse empreendimento, encorajou-a realizar o seu projeto político e
pedagógico de fundar uma escola para desenvolvimento e
aperfeiçoamento de mulheres, promovendo assim sua emancipação e
libertação pela educação.
Conseguiu
adaptar um templo lindíssimo dedicado a Afrodite, no alto de uma
colina, próximo a um despenhadeiro, com uma belíssima vista para o
Mar, para ser a base arquitetônica daquele projeto. E assim nasceu
primeira escola de mulheres da história, denominada CASA DAS MUSAS.
(foi a primeira escola de aperfeiçoamento de desenvolvimento de
pessoas da história).
Esse projeto
objetivava portanto preparar as mulheres para serem lindas,
saudáveis, elegantes, interessantes, cultas, pensantes,
protagonistas, líderes, conscientes, politizadas e desabrochadas em
suas potencialidades e aptidões artísticas e intelectuais.
E também
boas amantes dos seus futuros maridos, capazes de concorrer com as
cortesãs da época que eram chamadas de hetaíras. Como hetaíra
também significa amiga, ela preferiu chamar suas alunas de hetaíras
talvez querendo dizer que elas eram amigas e talvez tão hábeis
quanto as outras hetaíras (prostitutas).
Do currículo
da sua Escola constava as seguintes disciplinas: Retórica, Poética,
Dança, Literatura, Música (Canto Individual e coral e Música
Instrumental), Natação, Equitação, Filosofia, Religião, Cultura
Física, Artes, Embelezamento, Ciências, Política, História, Arte
da Sedução, etc.
A Escola de
Sappho foi um grande sucesso e sua fama se espalhou por todo Reino de
Lesbos e por toda Grécia, provocando as mais diversas e
contraditórias reações. Imagino que a repercussão entre os
homens de Atenas foi a mais negativa possível, pois ela questionava
todas as suas crenças e preconceitos contras mulheres. Em Esparta
as mulheres deviam ter começado a pressionar os maridos pelo direito
de se alfabetizarem e terem acesso à cultura. As famílias
disputavam vagas para matricular suas filhas.
A cerimônia
de admissão e a de saída da escola era assistido pelas famílias e
senhoras interessadas da alta sociedade lésbia. Eram espetáculos de
inefável arte e beleza, oferecidos pelas garotas e pela mestra com
muita música, dança, discursos e poesia. Elas cantavam em solo e
em coro acompanhada pelas harpas e cítaras. Dançavam em cenas que
levariam ao êxtase o próprio DEGAS. Faziam discursos eloquentes,
declamavam poemas épicos, líricos e amorosos compostos por elas
mesmas e com o mais belo da dramatização teatral. Contavam
histórias. Executavam músicas belíssimas com seus instrumentos
musicais. Enfeitiçavam a platéia com seus perfumes, vestuário,
penteados, jóias, adereços e maquiagens.
E Sappho
recebia cada aluna na chegada com um discurso e uma ode personalizada
de boas vindas, em que exaltava as ginitudes, qualidades e potenciais
da caloura e falava da seus sentimentos de satisfação e alegria por
recebê-la, fazendo cada uma se sentir acolhida e especial. E fazia o
meso na saída definitiva, só que o discurso e a ode além de
exaltarem as qualidades físicas, intelectuais e espirituais da
retirante, falava dos seus sentimentos pela separação, da sua
afeição e do seu amor.
O sucesso de
A CASA DAS MUSAS se fez maior e os seus resultados foram tão bons
que frequentemente Sappho se via envolvida em cerimônia de entrada e
saída de hetaíras. A maioria saía para se casar. As alunas
impressionavam demais os bons partidos de Lesbos e até de outras
paragens, despertando paixões avassaladoras. Indiretamente a escola
se tornou uma eficiente agência matrimonial, talvez para desgosto da
poetisa. Afinal quem estava em busca de esposas interessantes que
fossem inteligentes, prendadas, cultas e boas amantes, ficavam de
olho nas hetaíras de Sappho. E tinham toda razão, pois as garotas
da escola reuniam numa só e única mulher as vantagens de uma
esposa, de um parceiro masculino e de uma hetaíra (prostituta).
Mas como
acontece com toda árvore que dá bons frutos, a Escola de Sappho,
acabou levando pedradas, pois as famílias cujas filhas não
frequentaram aquela pioneira instituição educacional encontravam
mais dificuldades em casá-las, o que foi criando uma resistência e
oposição ao projeto. Muitos homens importantes de Lesbos, mas que
simpatizavam com a visão ateniense sobre a mulher começaram a ser
rejeitados pelas alunas da poetisa maior, que ficaram mais exigentes
e passaram a fazer a contra-seleção de maridos, ora, na Grécia,
mesmo em Lesbos, onde já se viu mulher escolher marido?
Por outro
lado, Sappho nunca incomodou com sua poesia, mesmo aquelas que
sugeriam suas paixões pelas garotas, o que incomodava mesmo foi essa
emancipação intelectual e civil das mulheres que ela estava
viabilizando e promovendo, uma revolução pela educação, a mulher
de Creta estava renascendo em Lesbos e isso incomodava os homens e a
classe dominante de lá, por mais liberais que fossem. E por mais
outro lado, incomodavam demais os escritos de Sappho sobre assuntos
políticos e filosóficos que eram restritos a homens, pois assim ela
provava que não só nas artes mas também na filosofia e na ciência,
a mulher quando oportunizada era tão capaz quanto o homem e que seu
sucesso não era apenas uma concessão de homens generosos, porém
fruto de uma competência intelectual própria. Uma estratégia
inteligente da oposição foi exaltar e divulgar sua poesia que não
tinha cunho político e ignorar e boicotar todas as outras obras, uma
vez que suas poesias jamais assustariam Pitaco a ponto de exilá-la
para tão longe, o que o assustou mesmo foram outros escritos que não
nos deixaram ver.
As obras
poéticas de Sappho foram best-selers na época e batiam recorde de
cópias e de difusão por todo mundo grego e adjacências, pois como
se explica que elas circularam pelo Império Macedônico, indo parar
em Alexandria onde os seus sábios a compilaram em nove livros,
tiveram alguns de seus trechos gravados em sarcófagos egípcios e
veiculadas pelo Império Romano e finalmente queimadas, junto com as
obras de Alceu, em Constantinopla, no ano de 1097 pelo “Cristianismo”
fundado pelo Imperador Constantino? Muito antes dos censores
medievais darem um espetáculo triste de intolerância religiosa e
cultural, outros sábios importantes como Aristóteles mandaram
recolher os trabalhos de Sappho, séculos depois e engavetá-los por
que tremeram diante do que viram. E não foi só a poesia dela que
eliciou tanta atitude fascista e fanática, foram os mesmo escritos
que assustaram Pitaco, foram aqueles escritos que provavam que tudo
que se dizia, pregava e praticava a respeito da inferioridade da
mulher, eram refutados pelo trabalho intelectual da décima Musa.
Sappho com o conjunto da sua obra era uma prova viva de que todo
machismo grego não passava de uma falácia, um racismo, um fascismo
e uma discriminação contra a mulher.
As
autoridades de Lesbos a partir de certo momento da história ficaram
à espreita para aproveitar a primeira oportunidade que surgisse para
fechar o foco revolucionário que era sua escola e dar uma frenada no
movimento que ela iniciou.
As saudações
que Sappho fazia às suas alunos nas cerimônias de entrada e de
saída de cada aluna, com poesias carregadas de muita emoção,
paixão e sensualidade eram alvo de muitos boatos em Metilene,
imagino como agiam as velhas mexeriqueiras e os fofoqueiros de bar.
Porém jamais foram motivo suficiente para fechar a escola, pois,
ninguém estava preocupado com que as mulheres fizessem ou deixassem
de fazer na sua intimidade, desde quando isso não interferisse na
sua disposição para casar e garantir a descendência da família,
porém o que se espalhava é que as alunas da Escola de Sappho só
queriam saber de mulheres e por isso é que eram tão exigentes com
as propostas de casamento.
De um modo
geral mesmo que em certos reinos ou em certos momentos históricos os
gregos de antes e de durante a antiguidade clássica, mesmo que
considerassem muitas vezes a homossexualidade masculina superior à
heterossexualidade, eram intolerantes com a orientação sexual
exclusiva principalmente quando fosse uma ameaça à maternidade ou à
paternidade. Se o trabalho pedagógico de Sappho estava se
configurando como essa ameaça, então a situação passa de
inofensivas bobagens de mulheres para a de perigo real, logo,
gravíssima.
Sendo assim
aquela oportunidade surgiu durante o conflito intrapessoal de Átis,
a aluna preferida de Sappho, a quem ela dedicou mais poemas
“calientes”. Átis apaixonou-se por um rapaz e aceitou a sua
proposta de casamento, porém na hora de se despedir de Sappho e das
companheiras quis voltar atrás (“amarelou”), o barraco estava
formado.
A família
de Átis veio buscá-la usando de autoridade, as autoridades
exploraram o escândalo e as outras famílias retiraram suas filhas e
assim a Casa das Musas foi fechada. O episódio foi traumático para
todo mundo. Faltou a Sappho a habilidade polítca para lidar com
tudo isso.
Mas seu
esforço não foi em vão. O seu exemplo e a sua experiência
pedagógica contaminou toda Grécia e não só em Lesbos, mas em
todos os lugares onde as mulheres tiveram espaço, novas escolas de
mulheres foram surgindo.
A frustração
foi grande, um grande sonho parecia ter acabado, mas a nossa incrível
heroína, não se deixou abater. Levantou a cabeça, fez da sua dor
inspiração e foi à luta, escrevendo como nunca, compondo poemas
líricos e respectivas melodias belíssimas e cantando como nunca.
Não ficou
só, viveu cercada de admiradores e recusou muitas propostas de
casamento e a justificativa que ela costumeiramente apresentava é a
de que os homens não estão preparados para aceitar e conviver com
uma esposa como ela.
Ocupou-se
também de cuidar do irmão mais novo que vivia se metendo em
encrenca, empreendendo viagens absurdas e se envolvendo com as
mulheres mais erradas. Foi mais do que irmã de Xe..., foi mãe e
sogra, especialista em desmascarar mulher bandida.
Aos sessenta
anos ela recebeu uma proposta apaixonada de casamento de alguém mais
jovem e recusou dizendo que, embora se sentisse muito tentada, já
não tinha condições físicas para essa empreitada, pois havia
perdido o frescor e estava seca.
Alguns
historiadores como Heródoto e Estrabão contam que ela se apaixonou
por um marinheiro chamado Faonte e suicidou-se porque este a
abandonou, atirando-se de um despenhadeiro. O suicídio de Sappho
foi retratado numa pintura
Charles-August Mengin (1877).
Todavia, escritos de Sappho descobertos muito depois desse relato,
provam que tudo não passou de lenda ou estratégia para tirá-la de
circulação e fazê-la cair no ostracismo ou seja apagá-la da
memória e do imaginário helênicos. Talvez fosse uma estratégia
engendrada por ela mesma, para escapar dos assédios e perseguições.
Temos todas
as razões para pensar que Sappho teve uma vida sexual muito restrita
quase casta, que viveu num mundo de fantasias curtindo amores
platônicos, que nunca foram declarados e muito menos realizados (Não
existe nenhum relato histórico ou mesmo anotações em diários
femininos de que ela foi surpreendida ou se exibiu namorando e/ou
teve uma união estável com outra mulher, nem na época da sua
adolescência e juventude, numa sociedade liberal em termos de
costumes, nem durante sua convivência com as alunas e nem durante
sua vida pós-escola.).
Temos todas
as razões para pensar que ela fosse adepta do amor-livre e devorou
todos os homens interessantes que cruzaram o seu caminho, só não
queria as limitações e obrigações de um casamento.
Temos todas
as razões para pensar que ela era bissexual como era o normal na
sociedade grega de um modo geral, em que os homens exercitavam isso
publicamente e as mulheres discretamente e consumiu tudo que tinha
direito.
Mas provas
mesmo concretas não existem, tudo nasce, cresce e morre no terreno
das hipóteses e das especulações e de muita fofoca histórica que
reflete mais os desejos e projeções dos seus autores.
Para mim
está claro que o primeiro grande motivo porque ela foi tão
perseguida, sabotada, censurada e discriminada foi o fato de ela ser
uma prova viva de que todas teses do machismo grego sobre a mulher
estavam erradas e não tinham qualquer fundamento lógico, filosófico
e muito menos científico, vale repetir. Tentaram tudo que puderam
para neutralizá-la e como nada deu certo, porque até os homens
ficaram divididos, partiram para a estupidez e começaram a recolher
e engavetar suas obras e depois destruí-las.
O segundo
grande motivo foi porque ela estava mostrando que o caminho da
emancipação e libertação da mulher era a educação e isso
começou um movimento revolucionário na cabeça das mulheres que se
estende até hoje.
O terceiro
grande motivo foi o de que o seu discurso pedagógico e filosófico
ao tornar as mulheres mais pensantes e críticas, portanto mais
exigentes quanto à qualidade dos candidatos a marido, foi sentido
como um trabalho para convencer as mulheres a não quererem se casar,
logo era um trabalho contra o casamento, contra a família e contra a
maternidade. Isso era inaceitável e continua sendo.
Mas eu não
creio que ela tenha tido essa intenção, já que se casou e foi um
exemplo de Mãe e com sua escola contribuiu para realizar muitos
casamentos.. Entretanto os políticos em qualquer época conseguem
endeusar e demonizar qualquer coisa e a até a mesma coisa, conforme
suas conveniências.
Sappho
merece todo o louvor, todo o reconhecimento e todas homenagens do
mundo pelo gênio que foi do saber, da literatura, da educação e da
poesia mundial de todos os tempos, mas não se deve confundir,
associar ou misturar a sua genialidade com as especulações sobre
sua orientação sexual. O gênio é o gênio e será gênio
independente de qualquer orientação sexual, assim como o monstro é
o monstro como foram muitos césares e Alexandre Magno.
Observem que
os estudiosos do homossexualismo feminino, quando citam Sappho como o
grande exemplo para ilustrar suas explicações e seus discursos
estão de certa forma, não sei se intencional ou não, colocando-lhe
um rótulo que a torna alvo de preconceitos e criam uma sombra que
induz as pessoas passionalmente a endeusá-la ou demonizá-la, a
priori, sem sequer se dar ao dever de conhecê-la e conhecer a sua
obra fantástica.
Vejamos um
pouco da obra da nossa encantadora poetisa, professora e artista
performática:
a)
Poema para Atis (cujo título bem que poderia ser ciúme), sua aluna
mais querida, que estava arrumando as malas para deixar a Escola e se
casar:
"Semelhante
aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo
que, sentado à tua frente, ou ao teu lado,
te
contemple e, em silêncio, te ouça a argêntea voz
e
o riso abafado do amor. Oh, isso - isso só - é bastante
para
ferir-me o perturbado coração, fazendo-o tremer
dentro
do meu peito!
Pois
basta que, por um instante, eu te veja
para
que, como por magia, minha voz emudeça;
sim,
basta isso, para que minha língua se paralise,
e
eu sinta sob a carne impalpável fogo
a
incendiar-me as entranhas.
Meus
olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me
aos ouvidos;
o
suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor (…)”
b)
Poema sobre a morte:
”Isto
nós sabemos/
A
morte é um mal/
Quanto
a isso temos
a
palavra dos deuses;
eles
também/
Morreriam
se a morte/
Fosse
uma coisa boa.”
c)
Poema sobre o amor em solidão (fragmento):
“O
desejo me queima por dentro...
A
Lua e as Pleiades desapareceram,
a
noites está na sua metade,
a
hora passa, e eu fico sozinha na minha cama
O
amor me tortura, me subjuga os membros,
doce
e amargo ao mesmo tempo, monstro invencível...
O
amor sacode minha alma,
como
o vento da montanha que se abate
sobre
os carvalhos...”
d)
Poema para Kleis, um fragmento que reflete o profundo amor materno
por sua filha:
“Tenho
uma formosa filha
que tem para mim
a esplendorosa beleza de uma flor de ouro,
minha amada Kleis,
a quem não trocaria por todas as riquezas da Lídia,
nem tampouco pela formosa Lesbos”.
que tem para mim
a esplendorosa beleza de uma flor de ouro,
minha amada Kleis,
a quem não trocaria por todas as riquezas da Lídia,
nem tampouco pela formosa Lesbos”.
e)
Poema para Átis II (um típico verso sáfico em outra tradução):
Contemplo
como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,
e
ris cheia de graça. Mal te vejo
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai
a minha voz,
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai
a minha voz,
a
língua como que se parte, corre
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,
e
banho-me de suor, e tremo toda,
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.
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