terça-feira, 21 de junho de 2016

PSAPPHA – SAPPHO DE LESBOS - A DÉCIMA MUSA

Autor: Newton Silva
Um artigo sobre a Uma das maiores
escritoras e poetisas de todos os tempos,
combinando história e literatura.



Há mais de 600 antes de Cristo, não se sabe ao certo se foi 630 ou 612, nasceu na cidade de Eresos, situada na ilha de Lesbos, Sappho, uma pioneira na educação e desenvolvimento de pessoas (especificamente de moças da Aristocracia de Lesbos), um gênio da literatura grega e uma das maiores poetisas do todos os tempos.

Mas por que esse nome Lesbos? Onde fica essa ilha? E como foi que surgiu esse ambiente e esse caldo de cultura humana que gerou, desenhou, pintou e esculpiu essa musa e gênia da poesia universal?

Lesbos é uma ilha, cujo nome sobreviveu a todos os conquistadores e à história até os dias de hoje, conservando-se inalterada em seu nome. Atualmente pertence a uma prefeitura da Grécia. Fica situada no Mar Egeu, defronte à Anatólia, na Ásia Menor.

Desde tempos remotos, tem sido muito visitada por cientistas sociais (historiadores, antropólogos, sociólogos, arqueólogos, etc.), estudiosos da literatura universal, poetas, poetisas e turistas.

Em tempos mais recentes tem sido também bastante procurada por lésbicas, similares e simpatizantes, sejam militantes de organizações, grupos e movimentos que defendem os direitos dos homoeróticos ou não. E as cidades mais visitadas, nesse caso, são Eresos, cidade do seu nascimento, e Metilene, cidade onde viveu a maior parte da sua vida, na época a capital cultural do mundo.

Desde o século XIX, muitos estudiosos e escritores da psiquiatria, psicopatologia, psicologia, psicanálise e sexologia quando dedicam um capítulo ao homossexualismo feminino, se referem a Sappho como exemplo mais ilustre e alguns chegam a citar trechos do que sobrou dos seus poemas, que parecem corroborar suas hipóteses sobre uma das orientações sexuais dela. Saliente-se que é uma visão muito limitadora e reducionista do que foi essa essa grande mulher, pois a grandeza dos gênios não cabem em nossas caixinhas e nem pode estar subordinada à fofoca histórica.

E foi assim que criaram os termos Safismo, para denominar o homossexualismo feminino, e sáfica para identificar a militante. Mas outros preferiram cunhar o termo lesbianismo e lésbica, com a mesma finalidade, numa alusão à terra natal de Sappho e talvez ao adjetivo pátrio respectivo. Só que cometeram um engano considerável, penso, porque o adjetivo pátrio de uma mulher que nasce na ilha de Lesbos, não é lésbica e sim, lésbia, pelo menos é o que está no grego original.

Lesbos, na antiguidade histórica, fazia parte da antiga Hélade, a grande nação helena formada pelas comunidades autônomas que evoluíram para as cidades-estado soberanas e independentes, ratificada pelas imensas afinidades culturais, religiosas, históricas e principalmente linguísticas que os uniam. A Hélade depois de seus períodos de formação, ascensão, apogeu e decadência foi conquistada primeiro pelo Império Macedônico, que por sua vez implodiu após a morte de Alexandre Magno, e depois pelo Império Romano, que num ato de extrema violência política e cultural rebatizou a Hélade como Grécia e os helenos como gregos, talvez até com intenção chistosa, mas o nome pegou e assim como Lesbos sobreviveu à história.

A Grécia da idade antiga, situada a sudoeste da Europa, tinha um território rico em variedades geográficas, pois era composta ao norte por uma Grécia continental (com as regiões: Tessália, Étiólia e Beócia, na verdade situadas na grande península balcânica); logo abaixo por uma Grécia Peninsular, as famosas penínsulas Peloponeso e Ática (com as regiões, Messênia, Arcádia, Lacônia e Argólida); por uma Grécia Insular semicircundante, onde a oeste, ficavam as ilhas do Mar Jônico (com destaque para Zacinto, Cefalênia, Lêucades e Ítaca, terra nativa do famoso Ulisses e da sua Penélope), ao sul, as ilhas do Mar Mediterrâneo (com relevância para Rhodes, com direito ao seu Colosso, Cárpatos e Creta, famosa pela lenda do Minotauro), e ao leste, as ilhas do Mar Egeu (com destaque para as ilhas Quios, Samos, Delos, famosa pela primeira Liga de países helênicos, Arquipélago Cíclades, Eubéa e Lesbos, a terceira maior ilha da nação helena); finalmente por uma Grécia colonial, constituída pelas povoações e cidades feitas em terras além-mar ou bem distantes, como a Magna Grécia ao sul da península itálica, a Jônia, nas costas da Anatólia, Ásia Menor, e outras ao norte da África.

Provavelmente chegaram até o sul da península ibérica, razão por que surgiu a lenda de que Hércules, o herói nacional dos dórios para uns e dos tebanos para outros, considerado um semideus e homem mais forte de todos os tempos, separou no braço a Europa da África, criando o estreito de Gibraltar. Curiosamente, as margens daquele estreito, que mais parecem colunas, são chamadas até hoje de Colunas de Hércules.

Sim, mas quanto a Lesbos? Quais foram os antecedentes que propiciaram a Lesbos se tornar uma grande potência econômica, marítima, política e cultural, sendo, provavelmente, aquela que foi a subnação grega que desfrutou por mais tempo de maior estabilidade, soberania, autonomia e independência, chegando a ser referência de saber, ciência e cultura durante um longo período da história helênica, só perdendo esse posto, muitos séculos depois, para a Atenas de Péricles?

Isto nos leva a viajar até uns 30 séculos antes de Cristo, para encontrar a grande península balcânica, com todo aquele ambiente geográfico já descrito, tão próxima da Mesopotâmia, justamente o lugar onde se desenvolveram as primeiras e mais e avançadas civilizações da antiguidade histórica, que eram cosmopolitas, pois concentraram e exportaram o saber mundial, por muitos séculos, em cima de andarilhos, cavalos, jumentos, camelos e embarcações.

Esse conjunto de territórios helenos, digo, gregos, era habitado por seres seminômades que viviam de caça, pesca, colheita de frutos vegetais e uma insipiente agropecuária, ainda na idade da pedra polida, ou neolítica. Eram os pelágios ou pelasgos, que talvez fossem autóctones ou migrantes que lá se assentaram. Essa vida tranquila e bucólica deles um dia iria acabar.

Enquanto isso, nas planícies eurasianas, situadas entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, viviam, em numerosos genos, clãs e tribos, os povos indo-europeus, que chegaram a constituir uma grande nação informal, afinizados pelas mesmas matrizes culturais, históricas, religiosas e principalmente linguísticas.

Esses povos são aqueles que falavam e ainda hoje falam sânscrito ou línguas derivadas do sânscrito.

Não é uma coisa fantástica descobrir-se que as línguas sintéticas como as anglo-germânicas, línguas analíticas como as neolatinas e línguas escandinavas, persas, indus e gregas têm a mesma origem?

O fator cultural é o que mais pesou nessa afinidade vez que eles eram constituídos do ponto de vista físico por uma grande diversidade de etnias caucasoides ou brancas (por isso encontramos grandes variações de cabelos, cor dos olhos, altura, formato de crânio, tipos de rostos, matizes de pele, etc.).

Eram nômades ou seminômades e por onde passavam, guerreando ou não, interagiam com outros povos e assimilavam muitas técnicas de agricultura e pecuária, construção civil e tecnologias militares.

E a medida que iam em grandes levas de migrantes se afastando do grupo de origem, mudando de clima, ambiente geográfico e de alimentação, miscigenando-se e sofrendo influências culturais de outros povos não indo-europeus, iam sofrendo alterações e variações na religião, fenotipia, cultura, comportamentos e língua.



Parece que em dado momento da sua história, os povos indo-europeus protagonizaram uma espécie de diáspora causada talvez pelas guerras, escassez de pastos e de caça e/ou excesso populacional. Um grupo foi em direção à Índia e ao Irã (Pérsia), outro avançou para o norte da Europa e outro chegou à Península Ibérica.

Mas o grupo de povos que mais nos interessa foi o que migrou do norte da Europa para a península balcânica em sucessivas levas, guardando intervalos de séculos. Dentre elas, quatro se destacariam como formadores da nação e civilização helênicas ou futura Grécia. Foram eles, os Aqueus, Jônios, Eólios e Dórios ou Dóricos.

Entretanto, muito antes deles chegarem ao seu destino, povos na idade do bronze, procedentes da Anatólia, portadores dos saberes e tecnologias mesopotâmicas e egípcias, migraram por mar e fizeram, há uns 3000 anos A.C., colônias em diversos pontos da Europa.

Nos balcãs e suas imediações ocuparam Creta, Chipre, algumas ilhas das Cíclades e algumas regiões orientais da Grécia continental. Creta foi a mais bem sucedida daquelas colonizações. Os nativos foram vencidos e em sua maioria fugiram para regiões mais selvagens das ilhas ou do continente.

Os novos senhores desenvolveram uma civilização avançadíssima para a época, construindo palácios (de muitos pavimentos, grandes dimensões, protegidos por engenhosos labirintos, a exemplo de Knossos, Festos, Máli e Zakros), residências, ruas e equipamentos públicos e privados bem projetados do ponto de vista arquitetônico e decorativo, oferecendo segurança, beleza, conforto e saneamento básico.

E assim surgiu a chamada civilização Cretense ou Minoica, que teve dois momentos de apogeu, o primeiro foi encerrado por uma catástrofe de causa desconhecida que destruiu as cidades de Creta e as soterrou.

O segundo foi reconstruído sobre suas ruínas, destacando-se o reconstruído palácio de Knossos, com seu famoso labirinto, que inspirou a lenda do minotauro e seu duelo com Teseu.

Sobre os labirintos, é bom que se diga que os reis cretenses os incorporaram aos seus projetos arquitetônicos de palácios, como forma de se defenderem dos invasores, pois estes para chegar até o rei tinham que passar por um dos maiores e mais difíceis testes de inteligência que já se inventou.

Nenhum homem sozinho conseguiu sair deles. Se a lenda de Teseu tem algum fundo de verdade é porque ele trabalhou em equipe com Ariadne, que era muito mais inteligente do que ele.

Todavia, o grande destaque na história como empreendedor, construtor e administrador ficou para o Rei Minos, por isso a civilização cretense ficou conhecida como Minóica e Minos se tornou uma dinastia de muitos reis Minos.


No seu conjunto, a civilização cretense confirmou a sua superioridade naquele momento histórico pelas seguintes realizações e sucessos:

  1. Política externa de boa vizinhança com todas as nações e países, priorizando as relações comerciais;
  2. Construção e Operação da maior e mais capacitada frota mercante;
  3. Comércio exterior bem administrado e acima da concorrência;
  4. Industria avançada, com divisão do trabalho e produção em série e tecnologia de ponta na época;
  5. Gestão da importação de matérias-primas do Chipre, das Cíclades e da Sicília e exportação de produtos industrializados de forma tão competente que os tornaram uma potência econômica;
  6. Administração de materiais, controlando os estoques do que produziam, compravam, vendiam e exportavam; organização administrativa, com planejamento e controle dos investimentos e gastos públicos, com a devida fiscalização e prestação de contas pelos gestores dos assuntos de estado, onde as decisões eram tomadas em cima de informações e números reais, por isso que realizaram tanto;
  7. Invenção de uma forma de escrita, cunhada em argila e inspirada nos hieróglifos egípcios, chamada Escrita Linear A, que até hoje não foi decifrada e que provavelmente foi a origem da escrita grega na fase histórica;
  8. Arquitetura e engenharia civil capaz de construir edifícios de mais de um pavimento que desafiaram o tempo e chegaram até nossos dias, só passíveis de destruição por grande terremotos, vulcões e tsunamis, salientando que os projetos arquitetônicos dimensionavam os ambientes de acordo com as suas finalidades, razão porque ofereciam funcionalidade, racionalização do trabalho e qualidade de vida;
  9. Administração dos conflitos e promoção da estabilidade sociais, através de uma equilibrada distribuição de terras e de renda, antecipando-se aos sonhadores e sociólogos do bem estar social e do socialismo democrático ou não;
  10. Valorização das artes e da cultura, prova é que, tinham vida cultural intensa, contemplando:
    10.1. Teatros ao ar livre.
    10.2. Dança acompanhada de cantos e instrumentos musicais (as cítaras por exemplo).
    10.3. Esculturas de tamanhos variados, inclusive em miniatura com diversos animais e outros temas.
    10.4. Pinturas de natureza viva e em movimento (flores, florestas, paisagens bucólicas, paisagens marinhas, touradas, pássaros voando, polvos e peixes nadando, etc,), precursando o fauvismo, impressionismo, expressionismo e outros movimentos nas artes plásticas, eles já captavam a beleza do movimento muito antes de Degas.
    10.5. Vestuário semelhante ao do Século XIX, só faltaram as valsas vienenses.
    10.6. Artesanato produzindo peças bem elaboradas complexas, em cerâmica, ouro, prata e bronze (isto quer dizer que as mulheres cretenses de então andavam belíssimas, bem vestidas, bem adornadas com joias e moravam em casas confortáveis, bem decoradas, dotadas de rede de esgotos e água encanada e valorizadas com obras de arte).
11) VALORIZAÇÃO DA MULHER - Talvez fosse pelo fato de a padroeira de Creta ser SELOS, a GRANDE-MÃE, (uma deusa-mulher com valores femininos, senhora do bem e do mal, da fertilidade e da maternidade, da terra e da humanidade), a mulher era muito considerada, venerada, respeitada e valorizada, gozando de muita liberdade e autonomia, ou seja, praticamente de todos os direitos de cidadã, inclusive o de exercer cargos públicos e religiosos, trabalhar no comércio e nas fábricas, organizar e participar de festas populares, ter atividades culturais e praticar esportes radicais, como caça, artes marciais e touradas. A Mulher Mnoica foi a grande precursora das grandes mulheres independentes, criativas, multitalentosas e empreendedoras como SAPPHO, que marcaram a história da humanidade e foi impossível torná-las invisíveis.



Uma verdade muito positiva parece ser vislumbrada pela civilização minoica: quando uma sociedade é guiada espiritualmente por uma deusa-mãe, uma mulher elevada à categoria de deusa com valores femininos, ela se torna um ambiente mais prazeroso e agradável de se viver, pois, oferece muito mais qualidade e valorização da vida, há bem mais justiça, paz e inclusão social, a cultura fica bem posicionada na sua escala de valores e busca sempre uma solução pacífica para os conflitos de interesse.

Justamente o oposto do que geralmente acontece numa sociedade que tenha como mentor espiritual um Deus ou uma Deusa com valores masculinos, como foi o caso de Atenas, em que as mulheres foram cidadãs de segunda classe ou nem foram cidadãs, pelo contrário, foram niveladas a bens semoventes (bois, ovelhas, jumentos, cabras, etc.), sem direito a liberdade ou autonomia, consideradas dependentes que nunca chegavam à maioridade, e reduzidas a serviçais domésticas e reprodutoras, e só foram valorizadas por isso ou muitas vezes nem por isso.

O governo era exercido de forma teocrática por um rei que podia ser líder de uma aristocracia comercial ou um tirano, concentrando em suas mãos os três poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e que, além de ser o supremo juiz, era o supremo sacerdote.

A civilização cretense, mesmo quase destruída territorial, politica e religiosamente, era tão forte em suas convicções e princípios que dominou culturalmente os seus vizinhos, conquistados e conquistadores e influenciou toda a civilização grega com sua superior capacidade tecnológica, industrial, cultural, artística, agropecuária, arquitetônica, administrativa, comercial, náutica e artesanal, só ficando a dever na área militar, pois não saiu da idade do bronze e foi atacada por adversários infinitamente mais ignorantes, inclusive o seu último invasor, os dórios, que já estavam na idade do ferro.

As cidades da Creta Minoica só foram superadas na qualidade e na quantidade da produção artística muitos séculos depois pela Atenas de Péricles. Por isso, ouso salientar que se houve países gregos em que a mulher teve liberdade e espaço para qualificar-se profissionalmente (Esparta) e educacional, cultural e intelectualmente (LESBOS), com certeza isso foi devido à influência da sociedade Minoica, principalmente do “mau” exemplo da Mulher Minoica. Sem essa influência tão bem vinda, Sappho talvez chegasse a ser no máximo uma boa reprodutora e senhora de escravos, confinada ao gineceu, mirando-se no “exemplo das mulheres de Atenas”.

Enquanto a civilização minoica dominava os mares Egeu, Jônio e Mediterrâneos e territórios já citados, com destaque para Creta, a partir do século XX antes de Cristo, aconteceram as imigrações daqueles quatro principais povos que viriam mais tarde constituir a civilização grega dos tempos homéricos, que marcou a história como um fenômeno de cultura, imaginação e saber.

Primeiro foram os Aqueus, em busca de pastos para seus rebanhos e terras férteis, há dois mil anos A.C. Como não tinham cultura e nem tecnologia de navegação fixaram-se na área continental e ao norte da península do Peloponeso.

Era um povo guerreiro que manipulava bem o cobre e sabia construir fortalezas fortificadas, Tróia é o melhor exemplo disso. Expulsaram para as montanhas os primitivos habitantes da região que viviam na idade da pedra polida, os pelasgos (coitados dos pelágios, viviam de expulsão em expulsão, tal como aconteceu e acontece com os nossos índios), impuseram sua língua, culminando por formar as bases do idioma grego que seria, posteriormente, adotado por toda Hélade.

Mais tarde aproximaram-se dos cretenses pacificamente e estabeleceram com eles importantes intercâmbios comerciais, culturais, artísticos, científicos e tecnológicos e aprenderam a arte de construir embarcações e navegar, tornando-se ora parceiros comerciais, ora concorrentes, quebrando o monopólio comercial minoico na região mediterrânea, sendo uma das causas iniciais da futura decadência econômica de Creta.


Os Aqueus tiveram a sabedoria de aprender tudo que puderam com os minoicos. Fizeram questão de aculturarem-se e difundiram a cultura dos seus parceiros por todas suas colônias no continente e nas ilhas gregas que ocuparam, fundaram a cidade de Micenas, que foi o marco histórico inicial da civilização creto-micênica.

A civilização micênica foi uma reprodução respeitosa da civilização minoica, até o primeiro método de escrita que inventaram, a Escrita Linear B, foi baseado e inspirado na Escrita Linear A, dos cretenses.
Por volta de 1400 A.C. os Aqueus aproveitaram o fato de Creta estar combalida pela concorrência comercial, catástrofes naturais e guerras civis e conquistou-a militarmente, encerrando uma longa era de independência e civilização. Entretanto, pode-se dizer que os aqueus originais desapareceram ao se fundirem biológica e culturalmente com os minoicos e darem origem ao povo micênico e à civilização micênica.

Só numa coisa, os aqueus divergiram radicalmente da civilização cretense, foi na religião. Destronaram a Deusa-Mãe minoica e conservaram seu deus masculino como padroeiro protetor das suas sociedades políticas. Isto quer dizer que mantiveram e até recrudesceram a família patriarcal com a supervalorização do homem, a desqualificação da mulher e o seu rebaixamento à condição de apenas um pouco acima dos escravos.

Com seu modelo machista de sociedade eles começaram a sinalizar para os jônios, que viriam depois, como construir a mulher de Atenas. A mulher propriedade do pai e depois do marido, destinada a ser serviçal e apenas reprodutora, com status de mercadoria, nivelada aos semoventes, proibida de alfabetizar-se, ter acesso à cultura e exercer atividades fora de casa.

Assim. o paraíso em que vivia a mulher minoica ruiu. A mulher mnoica, digo, creto-micênica sofreu uma das maiores violências e opressões culturais da história.

Felizmente, as sementes da emancipação feminina que se refugiaram no âmago da mulher cretense foram emergindo e silenciosamente contagiaram primeiro a civilização micênica, e depois, séculos mais tarde, toda civilização grega e quiçá universal.


Os micênicos já na fase de expansão marítima fundaram muitas colônias no sul da Itália, que vieram integrar a Magna Grécia. Fundaram cidades ao norte do Peloponeso de onde saíram Menelau e Agamenon, dois grandes heróis da guerra de Tróia, que também foi fundada por Aqueus. Na verdade a guerra de Tróia foi um conflito entre aqueus da região balcânica com aqueus da Ásia Menor.

Depois vieram os jônios e se estabeleceram na península de Ática e no Peloponeso e em diversas ilhas próximas da costa ocidental dos balcãs, no Mar Jônico, como Cefalênia e Ítaca, a partir de 1200 A.C. Tinham características parecidas com os aqueus no que se refere a estarem na idade do ferro, serem pastores e agricultores, terem habilidades militares e capacidade para construir cidades fortalecidas. Possuíam uma vantagem a mais, já estavam familiarizados com a navegação e também sabiam lidar muito bem com a cerâmica, o que tem levado muitos estudiosos a supor que eles fizeram uma estadia na Ásia Menor, antes de emigrarem para a Grécia.

Fundaram Atenas, que seria uma das mais poderosas, cultas e evoluídas cidades-estado da Grécia. Situada na Ática, ficava numa posição estratégica bastante protegida, inclusive pela geografia, e fora da rota dos mais violentos e bárbaros invasores que a Hélade conheceu, os dórios.

Os demais jônios, quando se viram ameaçados de extinção pela invasão dos dórios não tiveram dificuldades de emigrar para diversos pontos da costa mediterrânea, para ilhas do Mar Egeu e principalmente para a Anatólia, na Ásia menor. Foi lá que fundaram a Jônia, onde floresceu a escola filosófica jônica e, na cidade de Mileto, Thales, um dos grandes filósofos gregos, previu pela primeira vez na história um eclipse solar, com precisão matemática. E ainda no Mar Egeu aportaram e se estabeleceram na ilha de Lesbos. Metade da ancestralidade de Sappho era jônia, que sofreu influência da civilização minoica e micênica e a outra metade era eólia.

Os eólios após migrarem das planícies eurasianas onde viviam os povos indo-europeus, estacionaram um bom tempo na Macedônia e na Tessália norte da região balcânica. Deram uma inequívoca demonstração de poder por dominarem essas regiões e as ilhas a nordeste da Grécia por muito tempo e não foram alvo da carnificina dórica. Eram compostos de muitas tribos que foram se diferenciando com sua evolução, porém mantendo a religião e o dialeto que mais tarde seria chamado de grego arcaico, características em comum que denunciavam ter a mesma origem.

Quando resolveram emigrar, chamaram a atenção pelo fato de não terem um foco migratório definido como os aqueus, jônios e dórios. Eles migravam em grandes e pequenos grupos para as mais diversas direções, por isso foram encontrados por toda Grécia e vários pontos do Mediterrâneo. Os onipresentes eólios estavam não só no norte continental e nas ilhas do nordeste, como também em Beócia, Épiro, África, Ásia Menor, Tenedos, diversas ilhas do Mar Egeu, Chipre, Grécia Central e nas regiões abandonadas pelos jônios e aqueus-micênicos que fugiram da guerra de extermínio dos dórios.

Como eram os mais viajados e viajantes desses grupos indo-europeus, foram grandes compiladores das culturas com que entraram em contato, aculturando-se e aculturando. Agregaram mais valor ainda quando incorporaram a cultura creto-micênica, que os aqueus disseminaram por todas as suas áreas de influência, difundindo-a também por todos os sítios da Hélade e muito mais além em que pisaram.

Enquanto espalhavam o idioma grego primitivo, os eólicos foram um fenômeno de habilidade diplomática por não se envolverem em guerras com os demais povos formadores da Grécia, construindo as sociedades mais estáveis e duradouras de que se tem notícia naquele período histórico. Foram admiráveis outrossim pelo valor que davam à cultura e ao saber, cultivando-os de forma enciclopédica,


Enquanto os eólios prosseguiam na sua saga migratória, vamos invocar a Mitologia para contar uma possível história da terceira maior ilha da Grécia, antes que eles cheguem.

Estamos na região nordeste do Mar Egeu. Nessa ilha encantada, ornamentada de praias, mares e paisagens idílicas, reinava Xanto, filho de Trippas, rei dos Pelasgos de Argos. Todavia o grande dilúvio de Deucalião, exterminou grande parte da humanidade, inclusive os habitantes de Lesbos, deixando a ilha deserta. E mais uma vez lá se foram os pelágios...

Macareus, filho de Crinacus, neto de Zeus, natural de Olenus reocupou a ilha e estabeleceu ali o seu reino, constituído em sua maioria por jônios.

Pouco tempo depois, seguindo orientação de um oráculo, aportou na ilha, Lesbos, liderando um numeroso grupo de eólios e ali se estabeleceu pacificamente. Lesbos? Quem era esse homem? Lesbos foi um príncipe, filho Lapithes, rei da Tessália e neto de Eolo (aquele que se tornaria o Deus dos Ventos) e bisneto de Hipotes. Se avançarmos para a raiz das árvores genealógicas desses heróis descobriremos que Zeus pulou tanto a cerca que por isso todos descendem dele, frutos das suas aventuras com as outras deusas ou com maravilhosas mortais.

O príncipe Lesbos aliou-se ao Rei Macareus, casando-se com a filha dele denominada Methyma. Tornou-se seu sucessor e deu ao reino e ilha o nome de Lesbos em homenagem a si mesmo, revogando nomes anteriores e disposições em contrário.

Macaréus por sua vez preferiu homenagear a sua outra filha, Metilene, fundando uma cidade e dando-lhe o nome dela. Metilene se tornou a princípio a capital do reino, e mais tarde a capital intelectual daquele período por muito tempo. O reino de Lesbos prosperou e muitas cidades satélites foram criadas em torno da capital, dentre elas Eresos.

Como se vê, o nome Lesbos não tem nada a ver com homossexualismo feminino, historicamente falando. Em tempos bem mais recentes um pequeno grupo de cidadãos lésbios entraram com uma ação no Tribunal Internacional de Haia para proibir o uso de todas as palavras derivadas de Lesbos (como lésbica, lesbiana, lesbianismo, etc.) para significar, vincular-se e referir-se ao homossexualismo feminino.

Para o bem das mulheres e felicidade geral da nação Lésbia, o seu povo elegeu como guia e padroeira a Deusa Afrodite, uma deusa-mulher com valores femininos, protetora da família, da maternidade e da fertilidade e promotora do amor, muito semelhante a Selos, a deusa-mãe da civilização cretense.

Bem diferente da maioria dos reinos gregos, em Lesbos as mulheres da classe dominante (aristocracia) tinham vez e voz, eram respeitadas, bem tratadas, tinham acesso à cultura e eram muito amada pelos pais, que primavam por ter filhas bem prendadas, educadas e cultas para conseguirem os melhores maridos, que segundo o ponto de vista deles tinham que ser bons aristocratas, guerreiros, cavaleiros e ao mesmo tempo cavalheiros.

Não chegaram à plenitude de cidadania como aconteceu com a mulher mnoica e nem tiveram delegação para cuidar do comercio, da agricultura, da indústria, das artes militares e da gestão pública como as mulheres de Esparta (mas que em compensação eram praticamente analfabetas integrantes de povo semi-bárbaro de cultura mais oral do que escrita).

Mas, as lésbias tinham algo de muito valor que era o acesso ao estudo e à cultura e quantos às artes eram tanto apreciadoras como atrizes. Entretanto a educação era ministrada dentro das próprias casas por professores ou professoras, que embora sábios e detentores de vasto conhecimento eram geralmente escravas e os saraus de música, poesia, oratória, dramatização e dança eram feitos em família e no máximo reuniões restritas com as moças e senhoras da aristocracia Lésbia.

Todavia também havia festas coletivas na alta sociedade em que as jovens participavam e havia uma certa liberalidade com relação aos namoros e amizades coloridas, afinal era o território de Afrodite. Elas tinham o direito de ir e vir e de dialogarem, conviverem e travarem amizades com os homens da mesma classe, livremente e em público. Seriam comparáveis às baladeiras de hoje.

É preciso lembrar que as sociedades gregas de um modo geral tinham uma cultura patriarcal, fascista e machista em que a mulher grega era cidadã de terceira classe, só considerada superior aos escravos, aos de classe social inferior e aos estrangeiros. E que, não obstante, os gregos de um modo geral tinham orientação sexual múltipla e variável quanto a objetos e papéis. A bissexualidade era o mais comum e os amigos se tratavam com muita cordialidade e carinho, com muito contato físico. O sexo não era visto com as lentes da civilização judaico cristã.


Era comum que os adolescentes fossem iniciados sexualmente pelo seu educador ou mestre militar mais velho e até os 18 anos vivenciasse o papel de homossexual masculino passivo. Após essa idade eles ingressavam no serviço militar e alternando os papéis e culminavam por se tornar um iniciador dos mais jovens, passando a ser ativos (por mais que isso seja para nós um absurdo de pedofilia aprovada socialmente, era a cultura deles, era o paradigma que os norteavam). Não existia a figura da “Bicha Louca”, todos eram másculos na atitudes, no falar e no vestir e eram guerreiros valentes e exímios matadores.

É natural que homens que passavam tanto tempo juntos em viagens marítimas ou em guerras sucessivas e tão pouco tempo com as mulheres, só entendiam de homens e seus vínculos emocionais provavelmente envolveriam homens em sua maioria.

O caso mais radical foi o de Atenas em que os homens consideravam-se tão superiores às mulheres que só viam as mulheres como objetos sexuais para luxúria ou reprodução, mas sem qualquer envolvimento afetivo, afinal ela era na visão deles um ser inferior, quase um animal. Foi daí que surgiu a expressão “amor grego”, significando que o homem era tão superior que só podia amar outro homem, por isso preferiam estar na companhia deles todo tempo que pudessem.

Não obstante, todos os homens eram obrigados a se casar e ter filhos, dar continuidade à sua linhagem patriarcal e quem fugisse desse dever sofreria sérias consequências penais. Aqueles que se compraziam demais na companhia masculina, principalmente em Atenas, adiavam o máximo seus casamentos. E ainda houve um momento da história de Atenas em que os cidadãos aprovaram em assembléia o abrandamento da Lei, tornando a obrigação de casar atribuída a apenas um dos filhos de uma família, geralmente o mais velho.

Já em Esparta, a visão era eugênica e tudo estava subordinado ao aprimoramento biológico dos espartanos. Por isso, eles matavam os bebês portadores de deficiência física.

O Estado através de uma instituição formada por profissionais de adestramento assumia a educação das crianças a partir dos sete anos. Os meninos partir dos doze anos eram deixados sozinhos na selva, desarmados e sem provisões, com a missão de sobreviverem e encontrarem o caminho de casa. Isso selecionava os mais fortes e selvagens e os mais delicados e de constituição mais feminina eram eliminados.

Aos 18 anos os homens serviam ao exército e de lá só saiam aos 68 anos. Todos se casavam, mas só podiam ver as esposas nas folgas e ninguém se incomodava se quem estava de folga fosse generoso e até engravidassem as mulheres dos companheiros de caserna. Todos os filhos eram assumidos pelos maridos fossem biológicos ou não (não havia a figura do “corno” se o ator da infidelidade fosse outro espartano). Adultério punível com a morte seria uma espartana se deitar com um escravo, um hilota, um sem classe ou um estrangeiro. Só a esposa podia requisitar o marido para dormir uma noite extra com ela.

Já os atenienses tinham uma visão diametralmente oposta. Confinavam suas mulheres às tarefas e ambiente doméstico, principalmente a um amplo cômodo situado no fundo da casa, denominado Gineceu, reservado exclusivamente para elas. Ali, elas podiam fazer tudo que quisessem e ninguém estava interessado em saber o que. Elas só saíam para participar de festas religiosas.

Enquanto elas cumpriam suas missões de mães, domésticas e esposas, condenadas à dependência total e sem direito à alfabetização e à cultura, os homens discutiam se elas tinham ou não tinham alma. Eram desonroso um homem falar com uma mulher em público.

Em contrapartida havia um tipo de mulher que era livre, a prostituta. Por incrível que pareça para as mulheres atenienses era muito mais prazeroso serem “hetaíras” do que uma mulher de família. As rameiras eram muito apreciadas pelos maridos atenienses.

No auge da rivalidade, os espartanos faziam chistes com os atenienses dizendo que eles não gostavam e tinham medo de mulher, por isso as tratavam assim. Os homens de Atenas devolviam os insultos dizendo que os espartanos eram maricas porque eram governados pelas mulheres.

pesar de todo o preconceito contra a mulher Esparta e Lesbos eram exceções por tratarem bem as suas mulheres. As mulheres de Esparta recebiam treinamento militar pra defenderem a cidade na ausência dos homens. Lesbos era uma exceção maior ainda porque suas mulheres principalmente as da aristocracia além de bem tratadas, eram muito valorizadas, tinham acesso ao letramento e à cultura e gozavam de liberdade só superadas pelas mulheres Mnoicas.
Estou fazendo essa digressão salientar que Sappho, jamais seria perseguida e reprimida em Lesbos por causa de boatos a respeito da sua preferência sexual. A causa foi outra como veremos a seguir.

Metilene tornou-se um grande polo comercial e um dos maiores centros culturais daquele período da história antiga, uma espécie de precursora de Alexandria. Por muitos séculos foi governada por uma elite formada de grandes proprietários de terras e grandes comerciantes, uma aristocracia.

Essa história de elites dominantes é muito antiga e embora tenha feito cirurgias plásticas, tenha mudado muito o vestuário, o corte e o formato dos cabelos e usado um infinidade de maquiagens, não mudou muito e inspirou George Orwell a escrever A REVOLUÇÃO DOS BICHOS.

Foi justamente por volta de 630 A.C. como já foi dito acima, que na cidade de Eresos nasceu Sappho. O seu pai ao perceber que aquela menina precoce e muito inteligente não seria feliz e nem arranjaria bons partidos (maridos ricos, cultos, cavalheiros e guerreiros), vivendo numa cidade rural, mudou-se com a família para a capital do reino, Metilene, um grande centro urbano e comercial, que já estava evoluindo para se tornar a capital cultural do mundo ocidental da época.

Pouco se sabe da sua mãe, mas ela deve ter feito sua parte para que ela se tornasse uma mulher graciosa, educada e elegante e identificada com o seu gênero. Mas o seu pai, seu grande herói e marca psíquica, foi o maior entusiasta, patrocinador, gestor e fomentador da sua formação escolar e porque não dizer acadêmica, colocando-a aos cuidados dos melhores professores tanto na área intelectual como artística. E ela fez jus a essa confiança, dedicando-se aos estudos com afinco e buscando a excelência do desempenho escolar.

Foi assim que ela adquiriu uma cultura pessoal enciclopédica como convinha a todo bom grego, dominando os conhecimentos da Oratória, Música, Dança, Poesia, Declamação, Canto, Esportes menos radicais (como velejar em lagos, equitação, corridas, natação, etc.), Literatura, Filosofia, Política, Embelezamento e Etiqueta femininas, Religião (que nós ousamos chamar de mitologia porque não é a nossa) e o que mais que fosse relevante para a época.

Nas horas vagas, Sappho era inventora e chegou a construir uma Lira de 26 cordas, algo revolucionário em termos de tecnologia musical, com a qual se acompanhava ao canto e o canto das suas amigas e acompanharia mais tarde suas alunas.

Desde muito jovem, Sappho escrevia caudalosamente em prosa e em verso e não só fazia literatura artística, como também escrevia sobre os mais diversos ramos do saber e discorria e debatia com conhecimento de causa com homens e mulheres sobre qualquer assunto.

Entretanto, segundo os fofoqueiros da história, não foi por isso que ela era tão apreciada pelos rapazes, porém pelos seus dotes físicos, pela sua graça de mulher e pelos seus poderes de encantar e seduzir.

Segundo esses mesmos fofoqueiros ela teve até antes do exílio, uma vida amorosa muita ativa, o que permite deduzir que ela assim como Cleópatra deveria utilizar um método anticoncepcional eficaz, já que era uma mulher fértil. Os rapazes e raparigas da época se deram bem, com exceção de Alceu.

É compreensível que uma mulher assim, apesar de estar numa sociedade de costumes liberais, devia assustar muita gente e ser vista como ameaça por ser muito avançada para o seu tempo. Ela incomodava muito pela sua inteligência e militância política. É natural que provocasse muita inveja e muito despeito nas populações masculina e feminina e fizesse alguns desafetos.

Há e houve escritores que tiveram um grande engajamento político, como Jorge Amado e Graciliano Ramos, e expressaram isso na sua obra literária (basta ler São Jorge dos Ilhéus, Jubiabá, Gabriela, Vidas Secas, Memórias do Cárcere, etc. para verificar isso). Há outros como José de Alencar que teve uma alta militância política e jamais expressou isso em suas obras. Alceu amigo e eterno apaixonado por Sappho era desses que fazia poesia pessoal e também poesia política, já Sappho na sua poesia só cantou os encontros e desencontros do amor, a maternidade, os dramas íntimos, a amizade, o amor pela filha e seus amores incompreendidos pelas alunas, focou-se na poesia subjetiva e intimista.

Sappho também surpreende por ser além de escritora e poetisa, ser também musa de muitos poetas da sua contemporaneidade, principalmente de Alceu que dedicou inúmeras odes e serenatas à sua amada. Muitos intelectuais contemporâneos dela e de muitos séculos depois não conseguiam admitir em sua cegueira machista e seu absurdo preconceito contra a mulher que ela fosse o gênio que foi, queriam insinuar que sua obra era subversiva, e corruptora de costumes e por isso procuravam minimizar e desqualificar a sua pessoa e a sua produção literária.

Alguns historiadores da antiguidade como Homero e e Estrabão, baseados em esculturas imperfeitas deduziram que ela era baixa e magra e sem atrativos físicos, numa palavra era feia. Nenhuma mulher realmente feia poderia causar o “frisson” que ela causava nos moços mais inteligentes e atraentes de Metilene e ela não viveria tão assediada por frequentes propostas de casamento de bons partidos de todas as idades, desde a adolescência até a sua velhice. Essa polêmica em torno da beleza dela aconteceu em função de o padrão de beleza feminina do gregos era o clássico, ou seja estava mais para Vera Ficher, repleta de curvas e formas abundantes e generosas, enquanto que Sappho estava mais para Deborah Seco, desenho perfeito, formas econômicas e quase magra.

Então, todos os indícios apontam que ela era linda e fascinante, dona de uma beleza incomum. de tirar o fôlego e causar muitos suspiros. Ela tinha o poder de mobilizar o lado masculino da maioria dos homens e de algumas mulheres que a conheceram. Afinal, por aquelas paragens, os homens até em público e as mulheres na intimidade costumavam usar os dois com a maior sem cerimônia.


Sappho, não havia ainda completado 18 anos, quando alguns estratos sociais, constituídos de médios e pequenos comerciantes e agricultores, planejaram e realizaram uma revolução bem sucedida.

Ficou decidido não imagino ou imagino como, que o poder político deveria ser exercido por apenas um único mandatário, um ditador, Pítaco. Só ele dava pitaco em tudo e assim, aparentemente, o que era uma oligarquia aristocrática, com um rei que era mais um par dos seus liderados, tornou-se uma autocracia, uma ditadura.

Os aristocratas bem comportados, continuaram com o poder econômico, agora dividido com os novos ricos, as lideranças revolucionárias, os mais insatisfeitos sofreram as punições proporcionais, geralmente, o exílio.

Os novos senhores do poder político eram mais ligados às questões práticas da vida e não valorizavam a produção e o consumo de bens culturais como os aristocratas e isso causou grande insatisfação na juventude, que aliando-se a outros focos de resistência, conspirou e fez uma tentativa de tomar o poder.

O levante não deu certo e foi dominado pelas forças de Pítaco. Felizmente ele era um ditador generoso e condenou os insurrectos ao Exílio na cidade de Pirra, inclusive Alceu e Sappho, que só tinha então 19 anos, que pena tão novinha...

Alceu teria sido o maior poeta de Lesbos, se não fosse ofuscado por uma estrela de maior brilho, Sappho. Alceu, assim como sua musa, teve uma vasta produção literária e poética e criou novos tipos de versos que marcaram a história da poesia (os versos alceico e sáfico até hoje fazem história na arte poética).

Durante a viagem para o exílio, contam os fofoqueiros da história que ele deu uma cantada nela, conforme se pode ver pelo diálogo que se segue quase em forma de versos poéticos:

    ALCEU: - "Oh pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso, queria dizer-te algo, mas a vergonha me impede."
SAPPHO: - "Se teus desejos fossem decentes e nobres e tua língua incapaz de proferir baixezas, não permitirias que a vergonha te nublasse os olhos - dirias claramente aquilo que desejasses.".
Penso que ela foi muito mal cantada e o que ela respondeu tem a ver com ironia, pois os jovens daquela sociedade não tinham esse grau de empudoramento ou puritanismo, haja vista, como já dissemos, os costumes liberais que caracterizavam a sociedade em que viviam.
Tenho muitas razões para acreditar que na verdade Alceu estava querendo era fazer uma proposta de casamento e isso não interessava a ela, naquele momento, já que tinha tantos sonhos de realização intelectual e não queria cair na rotina de uma mulher casada e com as responsabilidades de mãe. Ora, se ela era tão jovem, rica, cortejada e livre como iria querer se comprometer tão cedo?
E ainda por cima Alceu era um tipo boêmio que não tinha um perfil de um bom marido, capaz de assumir uma família e honrá-la. Ninguém sabe o que houve de verdade entre eles, antes e depois dessa cantada, mas o fato é que ele lhe dedicou muitos poemas e outra manifestações artísticas de amor. Ela foi a eterna musa e paixão desse precursor de Castro Alves.
Contudo, Pitaco, meses depois, após analisar criteriosamente a produção literária dos jovens intelectuais rebeldes, principalmente a de Alceu e de Sappho, ficou muito assustado com seus escritos e resolveu condená-los a novo exílio em terras mais distantes, na cidade de Andros, situada na Sicília, Magna Grécia, península itálica.

Lá, Sappho conheceu um rico comerciante chamado Cercolas, com quem se casou. Ninguém sabe se por amor ou por outro motivo, pois não consta que Sappho fosse golpista, chegada a um golpe do baú, senão haveria uma fila imensa de pretendentes idosos e ricos, loucos para trocarem suas fortunas pela suprema ventura de viverem, nem que fosse alguns meses, com ela e depois morrerem felizes para sempre.

O fato é que Cercolas não aguentou o tranco e logo se foi, deixando uma viúva alegre, mais rica e com o maior dos tesouros, a sua filha Cleis. Cleis foi a sua maior musa, a quem dedicou a maior e o melhor da sua produção poética. Sappho foi a Mãe que sobre Cleis, assim se pronunciou: "dourada flor que eu não trocaria por toda a Lídia, nem pela formosa Lesbos"..

Cinco anos de exílio depois, a situação ficou mais tranquila em Lesbos e Sappho retornou a Metilene, em clima de anistia. Logo tornou-se uma líder de uma sociedade informal de senhoras cujo interesse era fazer saraus de música, dança e poesia.

O sucesso desse empreendimento, encorajou-a realizar o seu projeto político e pedagógico de fundar uma escola para desenvolvimento e aperfeiçoamento de mulheres, promovendo assim sua emancipação e libertação pela educação.

Conseguiu adaptar um templo lindíssimo dedicado a Afrodite, no alto de uma colina, próximo a um despenhadeiro, com uma belíssima vista para o Mar, para ser a base arquitetônica daquele projeto. E assim nasceu primeira escola de mulheres da história, denominada CASA DAS MUSAS. (foi a primeira escola de aperfeiçoamento de desenvolvimento de pessoas da história).

Esse projeto objetivava portanto preparar as mulheres para serem lindas, saudáveis, elegantes, interessantes, cultas, pensantes, protagonistas, líderes, conscientes, politizadas e desabrochadas em suas potencialidades e aptidões artísticas e intelectuais.

E também boas amantes dos seus futuros maridos, capazes de concorrer com as cortesãs da época que eram chamadas de hetaíras. Como hetaíra também significa amiga, ela preferiu chamar suas alunas de hetaíras talvez querendo dizer que elas eram amigas e talvez tão hábeis quanto as outras hetaíras (prostitutas).

Do currículo da sua Escola constava as seguintes disciplinas: Retórica, Poética, Dança, Literatura, Música (Canto Individual e coral e Música Instrumental), Natação, Equitação, Filosofia, Religião, Cultura Física, Artes, Embelezamento, Ciências, Política, História, Arte da Sedução, etc.

A Escola de Sappho foi um grande sucesso e sua fama se espalhou por todo Reino de Lesbos e por toda Grécia, provocando as mais diversas e contraditórias reações. Imagino que a repercussão entre os homens de Atenas foi a mais negativa possível, pois ela questionava todas as suas crenças e preconceitos contras mulheres. Em Esparta as mulheres deviam ter começado a pressionar os maridos pelo direito de se alfabetizarem e terem acesso à cultura. As famílias disputavam vagas para matricular suas filhas.

A cerimônia de admissão e a de saída da escola era assistido pelas famílias e senhoras interessadas da alta sociedade lésbia. Eram espetáculos de inefável arte e beleza, oferecidos pelas garotas e pela mestra com muita música, dança, discursos e poesia. Elas cantavam em solo e em coro acompanhada pelas harpas e cítaras. Dançavam em cenas que levariam ao êxtase o próprio DEGAS. Faziam discursos eloquentes, declamavam poemas épicos, líricos e amorosos compostos por elas mesmas e com o mais belo da dramatização teatral. Contavam histórias. Executavam músicas belíssimas com seus instrumentos musicais. Enfeitiçavam a platéia com seus perfumes, vestuário, penteados, jóias, adereços e maquiagens.

E Sappho recebia cada aluna na chegada com um discurso e uma ode personalizada de boas vindas, em que exaltava as ginitudes, qualidades e potenciais da caloura e falava da seus sentimentos de satisfação e alegria por recebê-la, fazendo cada uma se sentir acolhida e especial. E fazia o meso na saída definitiva, só que o discurso e a ode além de exaltarem as qualidades físicas, intelectuais e espirituais da retirante, falava dos seus sentimentos pela separação, da sua afeição e do seu amor.

O sucesso de A CASA DAS MUSAS se fez maior e os seus resultados foram tão bons que frequentemente Sappho se via envolvida em cerimônia de entrada e saída de hetaíras. A maioria saía para se casar. As alunas impressionavam demais os bons partidos de Lesbos e até de outras paragens, despertando paixões avassaladoras. Indiretamente a escola se tornou uma eficiente agência matrimonial, talvez para desgosto da poetisa. Afinal quem estava em busca de esposas interessantes que fossem inteligentes, prendadas, cultas e boas amantes, ficavam de olho nas hetaíras de Sappho. E tinham toda razão, pois as garotas da escola reuniam numa só e única mulher as vantagens de uma esposa, de um parceiro masculino e de uma hetaíra (prostituta).

Mas como acontece com toda árvore que dá bons frutos, a Escola de Sappho, acabou levando pedradas, pois as famílias cujas filhas não frequentaram aquela pioneira instituição educacional encontravam mais dificuldades em casá-las, o que foi criando uma resistência e oposição ao projeto. Muitos homens importantes de Lesbos, mas que simpatizavam com a visão ateniense sobre a mulher começaram a ser rejeitados pelas alunas da poetisa maior, que ficaram mais exigentes e passaram a fazer a contra-seleção de maridos, ora, na Grécia, mesmo em Lesbos, onde já se viu mulher escolher marido?

Por outro lado, Sappho nunca incomodou com sua poesia, mesmo aquelas que sugeriam suas paixões pelas garotas, o que incomodava mesmo foi essa emancipação intelectual e civil das mulheres que ela estava viabilizando e promovendo, uma revolução pela educação, a mulher de Creta estava renascendo em Lesbos e isso incomodava os homens e a classe dominante de lá, por mais liberais que fossem. E por mais outro lado, incomodavam demais os escritos de Sappho sobre assuntos políticos e filosóficos que eram restritos a homens, pois assim ela provava que não só nas artes mas também na filosofia e na ciência, a mulher quando oportunizada era tão capaz quanto o homem e que seu sucesso não era apenas uma concessão de homens generosos, porém fruto de uma competência intelectual própria. Uma estratégia inteligente da oposição foi exaltar e divulgar sua poesia que não tinha cunho político e ignorar e boicotar todas as outras obras, uma vez que suas poesias jamais assustariam Pitaco a ponto de exilá-la para tão longe, o que o assustou mesmo foram outros escritos que não nos deixaram ver.

As obras poéticas de Sappho foram best-selers na época e batiam recorde de cópias e de difusão por todo mundo grego e adjacências, pois como se explica que elas circularam pelo Império Macedônico, indo parar em Alexandria onde os seus sábios a compilaram em nove livros, tiveram alguns de seus trechos gravados em sarcófagos egípcios e veiculadas pelo Império Romano e finalmente queimadas, junto com as obras de Alceu, em Constantinopla, no ano de 1097 pelo “Cristianismo” fundado pelo Imperador Constantino? Muito antes dos censores medievais darem um espetáculo triste de intolerância religiosa e cultural, outros sábios importantes como Aristóteles mandaram recolher os trabalhos de Sappho, séculos depois e engavetá-los por que tremeram diante do que viram. E não foi só a poesia dela que eliciou tanta atitude fascista e fanática, foram os mesmo escritos que assustaram Pitaco, foram aqueles escritos que provavam que tudo que se dizia, pregava e praticava a respeito da inferioridade da mulher, eram refutados pelo trabalho intelectual da décima Musa. Sappho com o conjunto da sua obra era uma prova viva de que todo machismo grego não passava de uma falácia, um racismo, um fascismo e uma discriminação contra a mulher.

As autoridades de Lesbos a partir de certo momento da história ficaram à espreita para aproveitar a primeira oportunidade que surgisse para fechar o foco revolucionário que era sua escola e dar uma frenada no movimento que ela iniciou.

As saudações que Sappho fazia às suas alunos nas cerimônias de entrada e de saída de cada aluna, com poesias carregadas de muita emoção, paixão e sensualidade eram alvo de muitos boatos em Metilene, imagino como agiam as velhas mexeriqueiras e os fofoqueiros de bar. Porém jamais foram motivo suficiente para fechar a escola, pois, ninguém estava preocupado com que as mulheres fizessem ou deixassem de fazer na sua intimidade, desde quando isso não interferisse na sua disposição para casar e garantir a descendência da família, porém o que se espalhava é que as alunas da Escola de Sappho só queriam saber de mulheres e por isso é que eram tão exigentes com as propostas de casamento.

De um modo geral mesmo que em certos reinos ou em certos momentos históricos os gregos de antes e de durante a antiguidade clássica, mesmo que considerassem muitas vezes a homossexualidade masculina superior à heterossexualidade, eram intolerantes com a orientação sexual exclusiva principalmente quando fosse uma ameaça à maternidade ou à paternidade. Se o trabalho pedagógico de Sappho estava se configurando como essa ameaça, então a situação passa de inofensivas bobagens de mulheres para a de perigo real, logo, gravíssima.

Sendo assim aquela oportunidade surgiu durante o conflito intrapessoal de Átis, a aluna preferida de Sappho, a quem ela dedicou mais poemas “calientes”. Átis apaixonou-se por um rapaz e aceitou a sua proposta de casamento, porém na hora de se despedir de Sappho e das companheiras quis voltar atrás (“amarelou”), o barraco estava formado.

A família de Átis veio buscá-la usando de autoridade, as autoridades exploraram o escândalo e as outras famílias retiraram suas filhas e assim a Casa das Musas foi fechada. O episódio foi traumático para todo mundo. Faltou a Sappho a habilidade polítca para lidar com tudo isso.

Mas seu esforço não foi em vão. O seu exemplo e a sua experiência pedagógica contaminou toda Grécia e não só em Lesbos, mas em todos os lugares onde as mulheres tiveram espaço, novas escolas de mulheres foram surgindo.

A frustração foi grande, um grande sonho parecia ter acabado, mas a nossa incrível heroína, não se deixou abater. Levantou a cabeça, fez da sua dor inspiração e foi à luta, escrevendo como nunca, compondo poemas líricos e respectivas melodias belíssimas e cantando como nunca.

Não ficou só, viveu cercada de admiradores e recusou muitas propostas de casamento e a justificativa que ela costumeiramente apresentava é a de que os homens não estão preparados para aceitar e conviver com uma esposa como ela.

Ocupou-se também de cuidar do irmão mais novo que vivia se metendo em encrenca, empreendendo viagens absurdas e se envolvendo com as mulheres mais erradas. Foi mais do que irmã de Xe..., foi mãe e sogra, especialista em desmascarar mulher bandida.

Aos sessenta anos ela recebeu uma proposta apaixonada de casamento de alguém mais jovem e recusou dizendo que, embora se sentisse muito tentada, já não tinha condições físicas para essa empreitada, pois havia perdido o frescor e estava seca.

Alguns historiadores como Heródoto e Estrabão contam que ela se apaixonou por um marinheiro chamado Faonte e suicidou-se porque este a abandonou, atirando-se de um despenhadeiro. O suicídio de Sappho foi retratado numa pintura Charles-August Mengin (1877). Todavia, escritos de Sappho descobertos muito depois desse relato, provam que tudo não passou de lenda ou estratégia para tirá-la de circulação e fazê-la cair no ostracismo ou seja apagá-la da memória e do imaginário helênicos. Talvez fosse uma estratégia engendrada por ela mesma, para escapar dos assédios e perseguições.

Temos todas as razões para pensar que Sappho teve uma vida sexual muito restrita quase casta, que viveu num mundo de fantasias curtindo amores platônicos, que nunca foram declarados e muito menos realizados (Não existe nenhum relato histórico ou mesmo anotações em diários femininos de que ela foi surpreendida ou se exibiu namorando e/ou teve uma união estável com outra mulher, nem na época da sua adolescência e juventude, numa sociedade liberal em termos de costumes, nem durante sua convivência com as alunas e nem durante sua vida pós-escola.).

Temos todas as razões para pensar que ela fosse adepta do amor-livre e devorou todos os homens interessantes que cruzaram o seu caminho, só não queria as limitações e obrigações de um casamento.

Temos todas as razões para pensar que ela era bissexual como era o normal na sociedade grega de um modo geral, em que os homens exercitavam isso publicamente e as mulheres discretamente e consumiu tudo que tinha direito.

Mas provas mesmo concretas não existem, tudo nasce, cresce e morre no terreno das hipóteses e das especulações e de muita fofoca histórica que reflete mais os desejos e projeções dos seus autores.

Para mim está claro que o primeiro grande motivo porque ela foi tão perseguida, sabotada, censurada e discriminada foi o fato de ela ser uma prova viva de que todas teses do machismo grego sobre a mulher estavam erradas e não tinham qualquer fundamento lógico, filosófico e muito menos científico, vale repetir. Tentaram tudo que puderam para neutralizá-la e como nada deu certo, porque até os homens ficaram divididos, partiram para a estupidez e começaram a recolher e engavetar suas obras e depois destruí-las.

O segundo grande motivo foi porque ela estava mostrando que o caminho da emancipação e libertação da mulher era a educação e isso começou um movimento revolucionário na cabeça das mulheres que se estende até hoje.

O terceiro grande motivo foi o de que o seu discurso pedagógico e filosófico ao tornar as mulheres mais pensantes e críticas, portanto mais exigentes quanto à qualidade dos candidatos a marido, foi sentido como um trabalho para convencer as mulheres a não quererem se casar, logo era um trabalho contra o casamento, contra a família e contra a maternidade. Isso era inaceitável e continua sendo.

Mas eu não creio que ela tenha tido essa intenção, já que se casou e foi um exemplo de Mãe e com sua escola contribuiu para realizar muitos casamentos.. Entretanto os políticos em qualquer época conseguem endeusar e demonizar qualquer coisa e a até a mesma coisa, conforme suas conveniências.

Sappho merece todo o louvor, todo o reconhecimento e todas homenagens do mundo pelo gênio que foi do saber, da literatura, da educação e da poesia mundial de todos os tempos, mas não se deve confundir, associar ou misturar a sua genialidade com as especulações sobre sua orientação sexual. O gênio é o gênio e será gênio independente de qualquer orientação sexual, assim como o monstro é o monstro como foram muitos césares e Alexandre Magno.

Observem que os estudiosos do homossexualismo feminino, quando citam Sappho como o grande exemplo para ilustrar suas explicações e seus discursos estão de certa forma, não sei se intencional ou não, colocando-lhe um rótulo que a torna alvo de preconceitos e criam uma sombra que induz as pessoas passionalmente a endeusá-la ou demonizá-la, a priori, sem sequer se dar ao dever de conhecê-la e conhecer a sua obra fantástica.

Vejamos um pouco da obra da nossa encantadora poetisa, professora e artista performática:
a) Poema para Atis (cujo título bem que poderia ser ciúme), sua aluna mais querida, que estava arrumando as malas para deixar a Escola e se casar:

"Semelhante aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo que, sentado à tua frente, ou ao teu lado,
te contemple e, em silêncio, te ouça a argêntea voz
e o riso abafado do amor. Oh, isso - isso só - é bastante
para ferir-me o perturbado coração, fazendo-o tremer
dentro do meu peito!
Pois basta que, por um instante, eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça;
sim, basta isso, para que minha língua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos;
o suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor (…)”

b) Poema sobre a morte:


Isto nós sabemos/
A morte é um mal/
Quanto a isso temos
a palavra dos deuses;
eles também/
Morreriam se a morte/
Fosse uma coisa boa.”

    c) Poema sobre o amor em solidão (fragmento):

O desejo me queima por dentro...
A Lua e as Pleiades desapareceram,
a noites está na sua metade,
a hora passa, e eu fico sozinha na minha cama
O amor me tortura, me subjuga os membros,
doce e amargo ao mesmo tempo, monstro invencível...
O amor sacode minha alma,
como o vento da montanha que se abate
sobre os carvalhos...”

d) Poema para Kleis, um fragmento que reflete o profundo amor materno por sua filha:

Tenho uma formosa filha
que tem para mim
a esplendorosa beleza de uma flor de ouro,
minha amada Kleis,
a quem não trocaria por todas as riquezas da Lídia,
nem tampouco pela formosa Lesbos”.


e) Poema para Átis II (um típico verso sáfico em outra tradução):

Contemplo como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,

e ris cheia de graça. Mal te vejo
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai
a minha voz,

a língua como que se parte, corre
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,

e banho-me de suor, e tremo toda,
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.








BICHO HOMEM: UMA SÍNTESE DE TODOS OS ANIMAIS
Autor: Newton Silva
Há muitos milênios ou milhônios, li um conto do pessimista, cômico, irônico, sarcástico e genial mestre Machado de Assis. Nesse conto ele falava de um cientista louco, que, naqueles tempos hipocráticos, fazia experiências com seres humanos para descobrir suas motivações e curar suas taras partindo do princípio de que o homem é a síntese de todos os animais, e lá estava ele procurando o animal de cada um através de cirurgias exploratórias.
Isto me fez pensar em quanto o homem reproduz em sua natureza e cultura, a natureza e a “cultura” dos animais. Senão vejamos.
Algumas espécies de patos da Inglaterra, os veados com seus majestosos chifres ramificados e algumas raças de gorilas são rigorosamente monogâmicos, por isso, quando encontram os seus respectivos pares, formam casais unidos, fiéis e inseparáveis por e para toda a vida. E quando um dos companheiros morre o outro morre também algum tempo depois de tristeza. Romântico, não?
Esse amor romântico não é o que inspira tantos escritores e cineastas? Isto me faz pensar em tantos casais humanos, que não chegam a tanto, mas envelhecem juntos e nunca se separam, só a morte os separam, felizes e anônimos, pois os casos que vêm a publico e se tornam famosos tendem a não acabar bem. Não lembram de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Lancelot e a prometida para o Rei Artur, Hero e Leandro (na Grécia Antiga) e tantos outros que o teatro, o cinema e a literatura consagraram?
Algumas raças de gorilas são poligâmicas e montam um harém, onde um macho dominante, machão e chauvinista é o único galo do pedaço, marido de todas as fêmeas da família, embora aceite a permanência de machos dominados, contanto que eles não tentem chifrá-lo e aceitem o papel de eunucos do harém. Qualquer semelhança com costumes de certas sociedades humanas, geralmente orientais, é mera coincidência, será?
Fico pensando no Rei Salomão e suas oitocentas esposas e duzentas concubinas, numa época em que não existiam maridos auxiliares. Também me lembro dos rajás e marajás indianos e dos califas árabes, naquela fase áurea do grande império árabe do tempo das MIL E UMA NOITES. Não podemos esquecer da poligamia ocidental exercida na informalidade e aparente invisibilidade pelos poderosos e ricos de plantão.
Os equinos, muares e bovinos selvagens formam pelotões em que o líder segue à frente do primeiro pelotão formado por suas esposas, mantendo a distância regulamentar o primeiro sub-líder o segue com formação semelhante, e assim por diante, sendo possível que o último pelotão não tenha fêmeas suficientes ou não tenha fêmeas e tenha muitos idosos, cuja função é retardar os predadores.
E que tal o galo no terreiro num paraíso galináceo, repleto só de galinhas e todas dele. Tal poligamia talvez não tenha equivalente humano, mas não deixa de ser a fantasia de muitos espécimens de homo sex sapiens (homo em latim significa homem, homo em grego significa igual). Aliás os grandes ídolos da música popular e dos esportes, atraem multidões de mulheres que aceitariam fazer parte do harém daqueles que “são chegados”, caso eles quisessem e tivessem dinheiro para tanto, e assim construírem seus respectivos paraísos em que eles seriam os únicos galos em seus respectivos terreiros.
Essa má distribuição de fêmeas e de mulheres pode ocasionar sérias injustiças e violação dos direitos sexuais dos animais e dos humanos, pois há lugares nos dias atuais, em que nas classes mais baixas sobram homens e faltam mulheres e os homens acabam se olhando com olhares muito estranhos….


Mais uma vez me vêm à mente os califas, rajás, sultões, sheiks, patriarcas, etc. com seus haréns ou suas grandes famílias poligâmicas, competindo para ver quem tem mais mulheres e as mulheres disputando para ver quem tem mais filhos. Se prestarmos bem atenção, iremos descobrir que nos diversos meios sociais existiram e continuam existindo muitos homens com complexo de galo, garanhão, touro e/ou jumento dominante, usando estratagemas e artifícios diversos para ofuscar os demais machos e atrair a atenção de todas as mulheres do pedaço, fazendo a conversa girar em tornos deles e sob sua liderança.
Descobriremos também que muitos, homens ocidentais, especialmente latino-americanos, com posses ou sem posses, implementam verdadeiros haréns informais, de tamanhos variáveis, montando casas para suas teúdas e manteúdas. Também deve haver os haréns descentralizados mantidos pela poligamia enrustida. Quem é que não conhece um caso pelos menos de um desses galos ou garanhões humanos? O interior foi e é palco para muitos deles.
O leão está mais para explorador de mulheres, digo, leoas, do que para rei. Solteiro, ele trabalha duro, por falta de opção. Casado com a primeira esposa, ele se limita a assustar a presa com seus potentes urros, para que ela abata e traga a melhor parte pra ele, senão ela cai na porrada. Casado com a segunda esposa, ele se limita a dar uns urrinhos mentirosos, afinal as futuras vitmas terão duplo assédio gastronômico. E se houver uma terceira esposa, nem urrar ele quer mais, é capaz de delegar essa função para a leoa de porte mais atlético.
O que é curioso é que as três esposas do leão fazem um contrato moral, segundo o qual a cota de esposas é três, a partir daí o circuito conjugal é fechado. Elas três não permitem a entrada de uma quarta esposa, mas é claro que há exceções.
E não é que existem muitos homens assim, vivem às custa da mulher que trabalha, enquanto ele alega que não acha emprego porque há uma crise lá fora e uma crise aqui dentro e por isso não há emprego, e se ela se fizer de besta entra no cacete. E há casos em que ele tem mais uma, duas ou três amantes que vivem para sustentá-lo e trazendo-lhe sempre a Parte do Leão, senão... Eu conheci muitos maridos tipo leão, que espertalhões.
Os chipanzés, símbolos do bom humor, gostam de dançar, comemorar, fazer “macaquices” principalmente com os filhotes, podem brigar por liderança, mas não por posse exclusiva de fêmeas, pois nas suas tribos o que rola é a família coletiva, todos os machos são maridos de todas as fêmeas e todos também se assumem como pai dos filhotes, que defendem com a própria vida, e não estão preocupados em cobrar testes de DNA, seria um espécie de comunismo sexual radical.
É bem provável que, em muitas tribos humanas primitivas, a família coletiva à moda chipanzé fosse o costume mais frequente. Os estudos de Malinovski sobre os nativos e primitivos povos da ilha de Trobriand, no Pacífico Sul, revelaram que as famílias eram compostas pela mãe, ascendentes e colaterais, mas não havia a figura paterna, porque eles não sabiam que havia relação de causa efeito entre ato sexual reprodutivo em período fértil e gravidez e nascimento dos filhos.
Eles acreditavam que as mulheres ficavam grávidas porque tomavam banho de mar em noite de Lua cheia. Quem assumia a função paterna era o tio materno, que não tinha relação de marido e mulher com a sua irmã. Nesse contexto, os críticos de Freud, quanto a acreditar que o complexo de Edipo era inevitável por ser fruto da biogênese do homem, exultavam, pois haviam descoberto uma prova de que tal complexo era e é engendrado pela cultura.
Em período mais recente da história alguns segmentos sociais dos povos escandinavos, principalmente, e de outras partes da Europa empreenderam a construção de famílias coletivas, que foram reproduzidas por algumas tribos de “hippies”. É evidente que os humanos nesse ramo não foram tão competentes quanto os nossos irmãos chipanzés. Tem-se notícias de tempos pré-históricos em que os casamentos e as famílias eram coletivas. A sabedoria chipanzé criou uma sociedade em que não há órfãos e nem viúvas.


Todavia, no reino animal, há também os matriarcados, dentre os quais quero destacar o elefante. As manadas de elefantes são “sociedades” matriarcais, em que a liderança é conquistada por mérito, demonstrado em um torneio de artes paquidérmicas. Melhor dizendo é um matriarcado amazônico, considerando que uma tribo elefântica ou aliática é constituída exclusivamente de fêmeas adultas e crianças.
Os elefantes-machos quando vão chegando à pré-adolescência são expulsos pelo governo da tribo e por não saberem viver em grupo eles se dispersam e levam uma vida solitária, passando por um grande teste de sobrevivência. Os que sobrevivem aos predadores, têm o mérito de terem feito uma devastação na população dos ditos predadores. Um dia regulados por instinto, eles se encontram com as fêmeas do seu bando, justamente na época em que elas vão entrando no cio e por isso aceitam a presença deles para fins de acasalamento.
Passada a lua-de-mel com muito sexo da pesada, eles vão embora para seguir suas vidas e o bando de aliás segue também a sua, para gerar e cuidar dos novos bebês e viver conforme as regras de convivência estabelecidas pelo grupo. Diga-se de passagem, as aliás são muito mais generosas, civilizadas e mentalmente mais saudáveis do que as Amazonas, mencionadas na mitologia helênica, pois estas após a lua-de-mel, matavam os seus parceiros e as crianças do sexo masculino, assim que nem as viúvas-negras.
Sem chegar a esse extremo, a família germânica na Antiguidade Clássica, já no crepúsculo do Império Romano, era matriarcal e alguns historiadores e antropólogos atribuem a esse predomínio da grande Mãe a supremacia dos chamados bárbaros sobre as legiões romanas, o que levou à destruição do maior Império formal de todos os tempos.
Algumas sociedades anglo-germânicas involuíram ou evoluíram para patriarcados, em parte pela identificação com o patriarcado romano e em parte pelo patriarcado judaico-católico. Mas a força do matriarcado nesses povos é tão grande que os Estados Unidos é um matriarcado. Quem não lembra das histórias de Ferdinando, filho de Dona Chulipa e marido de Violeta?
Uma sociedade, difícil de entender lá oriente distante, é representada pelo Nepal e vizinhanças. Naquelas lonjuras e alturas onde predomina o machismo e patriarcalismo oriental, vamos encontrar povos poliândricos (poliandria é a poligamia feminina), em que uma mulher pode ter até onze maridos, com direito à reposição do harém, por morte de um ou mais dos seus esposos. São povos caçadores e quando uma expedição vai à caça, geralmente alguns maridos não voltam e para garantir a continuidade da família e do amparo às crianças esse modelo de família deve ter surgido, pelo menos é que afirma Linton, em sua Antropologia.
Essa notícia deve deixar muitos machos humanos ocidentais bastante indignados, muitas mulheres assustadas e perplexas, muitas curiosas e algumas muito interessadas. A grande vantagem desse modelo de família é que é quase impossível existir filhos totalmente órfãos e mulheres totalmente viúvas, mas a grande desvantagem para os homens é que se esposa morrer haverá onze viúvos. Será que eles arranjam uma segunda esposa com facilidade?...
Assim como aconteceu à maioria dos animais domesticados que vivem em cativeiro físico ou psicológico, os cães foram impedidos de amadurecer e se tornarem adultos em todos os sentidos, eles crescem fisicamente, se tornam até capazes de reproduzir, mas mentalmente permanecem crianças. Eles sucumbem ao poderio de uma cultura infinitamente mais poderosa, que lhe dá abrigo, proteção contra o extermínio, cuidados médicos, segurança, alimento e atenção, mas que em contrapartida roubam-lhe a alma, despojam-nos de sua “cultura”, tiram-lhe a identidade e os tornam irresponsáveis e dependentes, evolução roubada.
Sem as referências de sua família e cultura animal, sem os desafios da vida selvagem, sem o exercício da vida coletiva em matilha, eles não sabem quem são, não constituem famílias, não constróem os seus covis, não dividem o trabalho com a sua ou suas fêmeas para defender e criar os filhotes, não se tornam provedor e não assumem os filhotes. Sem essas referências que fazem um cão ser um cão de verdade, eles ficam imaturos, tornam-se filhinhos dos donos ou das donas, professam a religião do banda voou, ninguém é de ninguém e cultivam as amizades coloridas, se tem uma fêmea cio, eles querem cobrir, e uma fêmea domesticada, no cio, atrai e aceita todos os machos que se candidatarem a cobri-las até baixar o seu fogo.
Se os pais humanos não reaprenderem criar seus filhos e os criarem progressivamente como se cria cachorros, iremos cada vez mais produzir em massa filhos do carnaval, filhos da balada, filhos do pagode, filhos do Funk e outros filhos da irresponsabilidade... Cada vez mais os nossos jovens se comportarão como os cães domesticados e abandonados nas ruas e cada vez mais, nós ouviremos: “E as preparadas, as poposudas e as cachorras... Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!..” 

Curiosamente, os animais em vida selvagem levam um ciclo de vida lógico e linear, limitando-se ao necessário para sobreviver. Nascem, alimentam-se, crescem, lutam pela sobrevivência, reproduzem-se, envelhecem e morrem, se tudo correr bem, senão poderão morrer em qualquer fase do ciclo. Eles não têm tempo para sexo lúdico, não conhecem a menstruação, não se masturbam e não inventam comportamentos exóticos ou não reprodutivos.

Os pombos são tão carinhosos e românticos em todo processo do acasalamento, ou seja, no cortejo, preliminares, comportamento instrumental e comportamento consumatório. Por isso eles foram adotados durante muito tempo como símbolo do amor conjugal bem sucedido, caracterizado por ser harmônico, correspondido, prazeroso, sintonizado e fiel.
Mas os estudos da biologia do comportamento constataram que tudo isso é válido até o final da lua-de-mel. Mas quando as rotinas necessárias de uma vida a dois são exercidas, por uma questão de sobrevivência e perpetuação da espécie, e compartilhadas pelo casal, poderá acontecer abandono de lar e da prole.
Num casal de pombos é comum, após a postura de ovos, a tarefa maternal de chocá-los ser dividida entre o marido e a esposa. Sendo assim, após um período de chocagem, a fêmea deixa o seu companheiro no seu lugar, chocando os ovos e sai para satisfazer suas necessidades de atividade física, ingestão de alimentos, excreção de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, etc. E assim eles vão se revezando para cumprir a missão gestacional do casal.
Pode acontecer que, em alguns desses rodízios, algumas fêmeas ou machos não voltem para os seus respectivos lares. Os motivos, geralmente não são acidentes fatais de percurso ou ações de predadores, porém é a fêmea que foge com outro pombo (existe pombo Ricardão e como) e vai constituir novo lar, enquanto o coitado do ex-marido fica a esperar até perder a esperança no retorno da sua amada. Acreditando que ela foi vitima de uma fatalidade, o marido abandonado aceita a missão de se tornar pai e mãe, ou seja, Pãe.
Há casos em que a disputa pela fêmea é tão demorada, nas manadas de caprinos e ovinos, que as fêmeas mais impacientes e imediatistas fogem para um local afastado com um macho adolescente e com ele se acasala. Para quem não sabe dois carneiros disputando uma fêmea, por exemplo, travam um verdadeiro duelo, em que eles dão as costas um para o outro e se afastam em direções opostas, como se estivessem medindo a distância com os passos, e param no ponto de início do combate. Depois dão meia-volta volver, trocam impropérios, cavam o chão com uma das patas dianteiras, partem a toda velocidade e entram em violenta colisão frontal, um caso para a Transalvador. Caem tontos, levantam-se e recomeçam. A fêmea fica assistindo ao espetáculo, em que ela é o troféu, torcendo por um dos dois ou contra os dois, e se o duelo é muito longo, ela se põe a bocejar...
Comecei o texto citando algumas raças de gorilas e de veados que são monogâmicos e fiéis até a morte. Mencionei o pombo que já foi símbolo de casal monogâmico, romântico e fiel, como exemplo de falsa monogamia. Qualquer semelhança com os humanos mais uma vez não é mera coincidência. E em seguida falei das fêmeas que rompem com os padrões rituais estabelecidos e transam com um bode ou carneiro da sua escolha, numa atitude indubitavelmente feminista.
Todos os exemplos citados acima são provas irrefutáveis de que o seres humanos ao longo da história e na vida atual, reproduziram e reproduzem a cultura, os costumes e as espertezas do mundo animal, de várias espécies. Homens-Galos, Homens-Cavalos e Homens-Touros eram muito comuns no tempo de nossos avós, quem não se lembra de um caso da roça, eu mesmo não esqueço de um tal de Janjão do Pau Ferro, lá da Bahia, que teve seis mulheres e mais de cinquenta filhos. Homens-Leão vivem dando urros e a esposa ou as esposas se matando de trabalhar para dar a parte do leão para eles. Homens-Gamos ou Homens-Gorilas do Bem, com seus romances tipo Romeu e Julieta bem sucedidos, só separados pela morte, são raros, raríssimos, mas existem. Mulheres-Pães a guisa das pombas que são abandonadas pelos maridos e tem que criar os filhos sozinhas, são mais comuns, mas também à semelhança do pombos que são abandonados pelas esposas, encontramos alguns Homens-Pães, que fazem o duplo papel e criam os filhos sozinhos, conheci dois casos.
Quem não conhece casos de mulheres ricas que fogem na garupa do cavalo com rapaz pobre, driblam a jagunçada e vão se casar em lugar bem distante? Situação semelhante é a de mulheres brancas em contexto racista que fogem e até emigram para outro país, a fim de se casar com homens negros.
Nesse estudo fica a provocação segundo a qual a cultura humana, principalmente, no referente às formas de acasalamento e constituição de família, são reproduções das “culturas” de várias espécies e/ou raças animais.
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Este candidato a ensaio científico-literário foi influenciado pelas seguintes referências bibliográficas:
Linton, Ralph – ANTROPOLOGIA...
Autores Diversos – PANORAMA DA BIOLOGIA.
Autoras Diversas – O PODER DA MULHER...
Moris, Desmond Moris – O MACACO NU e A FAUNA HUMANA
Muitas Edições Televisadas da National Geografic Explorer, Discovery Channel e Globo Reporter, SBT Reporter, Fantástico Show da Vida, Domingo Espetacular e Planeta Selvagem.
Memórias das minhas observações dos comportamentos dos meus animais de estimação