terça-feira, 21 de junho de 2016

BICHO HOMEM: UMA SÍNTESE DE TODOS OS ANIMAIS
Autor: Newton Silva
Há muitos milênios ou milhônios, li um conto do pessimista, cômico, irônico, sarcástico e genial mestre Machado de Assis. Nesse conto ele falava de um cientista louco, que, naqueles tempos hipocráticos, fazia experiências com seres humanos para descobrir suas motivações e curar suas taras partindo do princípio de que o homem é a síntese de todos os animais, e lá estava ele procurando o animal de cada um através de cirurgias exploratórias.
Isto me fez pensar em quanto o homem reproduz em sua natureza e cultura, a natureza e a “cultura” dos animais. Senão vejamos.
Algumas espécies de patos da Inglaterra, os veados com seus majestosos chifres ramificados e algumas raças de gorilas são rigorosamente monogâmicos, por isso, quando encontram os seus respectivos pares, formam casais unidos, fiéis e inseparáveis por e para toda a vida. E quando um dos companheiros morre o outro morre também algum tempo depois de tristeza. Romântico, não?
Esse amor romântico não é o que inspira tantos escritores e cineastas? Isto me faz pensar em tantos casais humanos, que não chegam a tanto, mas envelhecem juntos e nunca se separam, só a morte os separam, felizes e anônimos, pois os casos que vêm a publico e se tornam famosos tendem a não acabar bem. Não lembram de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Lancelot e a prometida para o Rei Artur, Hero e Leandro (na Grécia Antiga) e tantos outros que o teatro, o cinema e a literatura consagraram?
Algumas raças de gorilas são poligâmicas e montam um harém, onde um macho dominante, machão e chauvinista é o único galo do pedaço, marido de todas as fêmeas da família, embora aceite a permanência de machos dominados, contanto que eles não tentem chifrá-lo e aceitem o papel de eunucos do harém. Qualquer semelhança com costumes de certas sociedades humanas, geralmente orientais, é mera coincidência, será?
Fico pensando no Rei Salomão e suas oitocentas esposas e duzentas concubinas, numa época em que não existiam maridos auxiliares. Também me lembro dos rajás e marajás indianos e dos califas árabes, naquela fase áurea do grande império árabe do tempo das MIL E UMA NOITES. Não podemos esquecer da poligamia ocidental exercida na informalidade e aparente invisibilidade pelos poderosos e ricos de plantão.
Os equinos, muares e bovinos selvagens formam pelotões em que o líder segue à frente do primeiro pelotão formado por suas esposas, mantendo a distância regulamentar o primeiro sub-líder o segue com formação semelhante, e assim por diante, sendo possível que o último pelotão não tenha fêmeas suficientes ou não tenha fêmeas e tenha muitos idosos, cuja função é retardar os predadores.
E que tal o galo no terreiro num paraíso galináceo, repleto só de galinhas e todas dele. Tal poligamia talvez não tenha equivalente humano, mas não deixa de ser a fantasia de muitos espécimens de homo sex sapiens (homo em latim significa homem, homo em grego significa igual). Aliás os grandes ídolos da música popular e dos esportes, atraem multidões de mulheres que aceitariam fazer parte do harém daqueles que “são chegados”, caso eles quisessem e tivessem dinheiro para tanto, e assim construírem seus respectivos paraísos em que eles seriam os únicos galos em seus respectivos terreiros.
Essa má distribuição de fêmeas e de mulheres pode ocasionar sérias injustiças e violação dos direitos sexuais dos animais e dos humanos, pois há lugares nos dias atuais, em que nas classes mais baixas sobram homens e faltam mulheres e os homens acabam se olhando com olhares muito estranhos….


Mais uma vez me vêm à mente os califas, rajás, sultões, sheiks, patriarcas, etc. com seus haréns ou suas grandes famílias poligâmicas, competindo para ver quem tem mais mulheres e as mulheres disputando para ver quem tem mais filhos. Se prestarmos bem atenção, iremos descobrir que nos diversos meios sociais existiram e continuam existindo muitos homens com complexo de galo, garanhão, touro e/ou jumento dominante, usando estratagemas e artifícios diversos para ofuscar os demais machos e atrair a atenção de todas as mulheres do pedaço, fazendo a conversa girar em tornos deles e sob sua liderança.
Descobriremos também que muitos, homens ocidentais, especialmente latino-americanos, com posses ou sem posses, implementam verdadeiros haréns informais, de tamanhos variáveis, montando casas para suas teúdas e manteúdas. Também deve haver os haréns descentralizados mantidos pela poligamia enrustida. Quem é que não conhece um caso pelos menos de um desses galos ou garanhões humanos? O interior foi e é palco para muitos deles.
O leão está mais para explorador de mulheres, digo, leoas, do que para rei. Solteiro, ele trabalha duro, por falta de opção. Casado com a primeira esposa, ele se limita a assustar a presa com seus potentes urros, para que ela abata e traga a melhor parte pra ele, senão ela cai na porrada. Casado com a segunda esposa, ele se limita a dar uns urrinhos mentirosos, afinal as futuras vitmas terão duplo assédio gastronômico. E se houver uma terceira esposa, nem urrar ele quer mais, é capaz de delegar essa função para a leoa de porte mais atlético.
O que é curioso é que as três esposas do leão fazem um contrato moral, segundo o qual a cota de esposas é três, a partir daí o circuito conjugal é fechado. Elas três não permitem a entrada de uma quarta esposa, mas é claro que há exceções.
E não é que existem muitos homens assim, vivem às custa da mulher que trabalha, enquanto ele alega que não acha emprego porque há uma crise lá fora e uma crise aqui dentro e por isso não há emprego, e se ela se fizer de besta entra no cacete. E há casos em que ele tem mais uma, duas ou três amantes que vivem para sustentá-lo e trazendo-lhe sempre a Parte do Leão, senão... Eu conheci muitos maridos tipo leão, que espertalhões.
Os chipanzés, símbolos do bom humor, gostam de dançar, comemorar, fazer “macaquices” principalmente com os filhotes, podem brigar por liderança, mas não por posse exclusiva de fêmeas, pois nas suas tribos o que rola é a família coletiva, todos os machos são maridos de todas as fêmeas e todos também se assumem como pai dos filhotes, que defendem com a própria vida, e não estão preocupados em cobrar testes de DNA, seria um espécie de comunismo sexual radical.
É bem provável que, em muitas tribos humanas primitivas, a família coletiva à moda chipanzé fosse o costume mais frequente. Os estudos de Malinovski sobre os nativos e primitivos povos da ilha de Trobriand, no Pacífico Sul, revelaram que as famílias eram compostas pela mãe, ascendentes e colaterais, mas não havia a figura paterna, porque eles não sabiam que havia relação de causa efeito entre ato sexual reprodutivo em período fértil e gravidez e nascimento dos filhos.
Eles acreditavam que as mulheres ficavam grávidas porque tomavam banho de mar em noite de Lua cheia. Quem assumia a função paterna era o tio materno, que não tinha relação de marido e mulher com a sua irmã. Nesse contexto, os críticos de Freud, quanto a acreditar que o complexo de Edipo era inevitável por ser fruto da biogênese do homem, exultavam, pois haviam descoberto uma prova de que tal complexo era e é engendrado pela cultura.
Em período mais recente da história alguns segmentos sociais dos povos escandinavos, principalmente, e de outras partes da Europa empreenderam a construção de famílias coletivas, que foram reproduzidas por algumas tribos de “hippies”. É evidente que os humanos nesse ramo não foram tão competentes quanto os nossos irmãos chipanzés. Tem-se notícias de tempos pré-históricos em que os casamentos e as famílias eram coletivas. A sabedoria chipanzé criou uma sociedade em que não há órfãos e nem viúvas.


Todavia, no reino animal, há também os matriarcados, dentre os quais quero destacar o elefante. As manadas de elefantes são “sociedades” matriarcais, em que a liderança é conquistada por mérito, demonstrado em um torneio de artes paquidérmicas. Melhor dizendo é um matriarcado amazônico, considerando que uma tribo elefântica ou aliática é constituída exclusivamente de fêmeas adultas e crianças.
Os elefantes-machos quando vão chegando à pré-adolescência são expulsos pelo governo da tribo e por não saberem viver em grupo eles se dispersam e levam uma vida solitária, passando por um grande teste de sobrevivência. Os que sobrevivem aos predadores, têm o mérito de terem feito uma devastação na população dos ditos predadores. Um dia regulados por instinto, eles se encontram com as fêmeas do seu bando, justamente na época em que elas vão entrando no cio e por isso aceitam a presença deles para fins de acasalamento.
Passada a lua-de-mel com muito sexo da pesada, eles vão embora para seguir suas vidas e o bando de aliás segue também a sua, para gerar e cuidar dos novos bebês e viver conforme as regras de convivência estabelecidas pelo grupo. Diga-se de passagem, as aliás são muito mais generosas, civilizadas e mentalmente mais saudáveis do que as Amazonas, mencionadas na mitologia helênica, pois estas após a lua-de-mel, matavam os seus parceiros e as crianças do sexo masculino, assim que nem as viúvas-negras.
Sem chegar a esse extremo, a família germânica na Antiguidade Clássica, já no crepúsculo do Império Romano, era matriarcal e alguns historiadores e antropólogos atribuem a esse predomínio da grande Mãe a supremacia dos chamados bárbaros sobre as legiões romanas, o que levou à destruição do maior Império formal de todos os tempos.
Algumas sociedades anglo-germânicas involuíram ou evoluíram para patriarcados, em parte pela identificação com o patriarcado romano e em parte pelo patriarcado judaico-católico. Mas a força do matriarcado nesses povos é tão grande que os Estados Unidos é um matriarcado. Quem não lembra das histórias de Ferdinando, filho de Dona Chulipa e marido de Violeta?
Uma sociedade, difícil de entender lá oriente distante, é representada pelo Nepal e vizinhanças. Naquelas lonjuras e alturas onde predomina o machismo e patriarcalismo oriental, vamos encontrar povos poliândricos (poliandria é a poligamia feminina), em que uma mulher pode ter até onze maridos, com direito à reposição do harém, por morte de um ou mais dos seus esposos. São povos caçadores e quando uma expedição vai à caça, geralmente alguns maridos não voltam e para garantir a continuidade da família e do amparo às crianças esse modelo de família deve ter surgido, pelo menos é que afirma Linton, em sua Antropologia.
Essa notícia deve deixar muitos machos humanos ocidentais bastante indignados, muitas mulheres assustadas e perplexas, muitas curiosas e algumas muito interessadas. A grande vantagem desse modelo de família é que é quase impossível existir filhos totalmente órfãos e mulheres totalmente viúvas, mas a grande desvantagem para os homens é que se esposa morrer haverá onze viúvos. Será que eles arranjam uma segunda esposa com facilidade?...
Assim como aconteceu à maioria dos animais domesticados que vivem em cativeiro físico ou psicológico, os cães foram impedidos de amadurecer e se tornarem adultos em todos os sentidos, eles crescem fisicamente, se tornam até capazes de reproduzir, mas mentalmente permanecem crianças. Eles sucumbem ao poderio de uma cultura infinitamente mais poderosa, que lhe dá abrigo, proteção contra o extermínio, cuidados médicos, segurança, alimento e atenção, mas que em contrapartida roubam-lhe a alma, despojam-nos de sua “cultura”, tiram-lhe a identidade e os tornam irresponsáveis e dependentes, evolução roubada.
Sem as referências de sua família e cultura animal, sem os desafios da vida selvagem, sem o exercício da vida coletiva em matilha, eles não sabem quem são, não constituem famílias, não constróem os seus covis, não dividem o trabalho com a sua ou suas fêmeas para defender e criar os filhotes, não se tornam provedor e não assumem os filhotes. Sem essas referências que fazem um cão ser um cão de verdade, eles ficam imaturos, tornam-se filhinhos dos donos ou das donas, professam a religião do banda voou, ninguém é de ninguém e cultivam as amizades coloridas, se tem uma fêmea cio, eles querem cobrir, e uma fêmea domesticada, no cio, atrai e aceita todos os machos que se candidatarem a cobri-las até baixar o seu fogo.
Se os pais humanos não reaprenderem criar seus filhos e os criarem progressivamente como se cria cachorros, iremos cada vez mais produzir em massa filhos do carnaval, filhos da balada, filhos do pagode, filhos do Funk e outros filhos da irresponsabilidade... Cada vez mais os nossos jovens se comportarão como os cães domesticados e abandonados nas ruas e cada vez mais, nós ouviremos: “E as preparadas, as poposudas e as cachorras... Uh! Uh! Uh! Uh! Uh!..” 

Curiosamente, os animais em vida selvagem levam um ciclo de vida lógico e linear, limitando-se ao necessário para sobreviver. Nascem, alimentam-se, crescem, lutam pela sobrevivência, reproduzem-se, envelhecem e morrem, se tudo correr bem, senão poderão morrer em qualquer fase do ciclo. Eles não têm tempo para sexo lúdico, não conhecem a menstruação, não se masturbam e não inventam comportamentos exóticos ou não reprodutivos.

Os pombos são tão carinhosos e românticos em todo processo do acasalamento, ou seja, no cortejo, preliminares, comportamento instrumental e comportamento consumatório. Por isso eles foram adotados durante muito tempo como símbolo do amor conjugal bem sucedido, caracterizado por ser harmônico, correspondido, prazeroso, sintonizado e fiel.
Mas os estudos da biologia do comportamento constataram que tudo isso é válido até o final da lua-de-mel. Mas quando as rotinas necessárias de uma vida a dois são exercidas, por uma questão de sobrevivência e perpetuação da espécie, e compartilhadas pelo casal, poderá acontecer abandono de lar e da prole.
Num casal de pombos é comum, após a postura de ovos, a tarefa maternal de chocá-los ser dividida entre o marido e a esposa. Sendo assim, após um período de chocagem, a fêmea deixa o seu companheiro no seu lugar, chocando os ovos e sai para satisfazer suas necessidades de atividade física, ingestão de alimentos, excreção de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, etc. E assim eles vão se revezando para cumprir a missão gestacional do casal.
Pode acontecer que, em alguns desses rodízios, algumas fêmeas ou machos não voltem para os seus respectivos lares. Os motivos, geralmente não são acidentes fatais de percurso ou ações de predadores, porém é a fêmea que foge com outro pombo (existe pombo Ricardão e como) e vai constituir novo lar, enquanto o coitado do ex-marido fica a esperar até perder a esperança no retorno da sua amada. Acreditando que ela foi vitima de uma fatalidade, o marido abandonado aceita a missão de se tornar pai e mãe, ou seja, Pãe.
Há casos em que a disputa pela fêmea é tão demorada, nas manadas de caprinos e ovinos, que as fêmeas mais impacientes e imediatistas fogem para um local afastado com um macho adolescente e com ele se acasala. Para quem não sabe dois carneiros disputando uma fêmea, por exemplo, travam um verdadeiro duelo, em que eles dão as costas um para o outro e se afastam em direções opostas, como se estivessem medindo a distância com os passos, e param no ponto de início do combate. Depois dão meia-volta volver, trocam impropérios, cavam o chão com uma das patas dianteiras, partem a toda velocidade e entram em violenta colisão frontal, um caso para a Transalvador. Caem tontos, levantam-se e recomeçam. A fêmea fica assistindo ao espetáculo, em que ela é o troféu, torcendo por um dos dois ou contra os dois, e se o duelo é muito longo, ela se põe a bocejar...
Comecei o texto citando algumas raças de gorilas e de veados que são monogâmicos e fiéis até a morte. Mencionei o pombo que já foi símbolo de casal monogâmico, romântico e fiel, como exemplo de falsa monogamia. Qualquer semelhança com os humanos mais uma vez não é mera coincidência. E em seguida falei das fêmeas que rompem com os padrões rituais estabelecidos e transam com um bode ou carneiro da sua escolha, numa atitude indubitavelmente feminista.
Todos os exemplos citados acima são provas irrefutáveis de que o seres humanos ao longo da história e na vida atual, reproduziram e reproduzem a cultura, os costumes e as espertezas do mundo animal, de várias espécies. Homens-Galos, Homens-Cavalos e Homens-Touros eram muito comuns no tempo de nossos avós, quem não se lembra de um caso da roça, eu mesmo não esqueço de um tal de Janjão do Pau Ferro, lá da Bahia, que teve seis mulheres e mais de cinquenta filhos. Homens-Leão vivem dando urros e a esposa ou as esposas se matando de trabalhar para dar a parte do leão para eles. Homens-Gamos ou Homens-Gorilas do Bem, com seus romances tipo Romeu e Julieta bem sucedidos, só separados pela morte, são raros, raríssimos, mas existem. Mulheres-Pães a guisa das pombas que são abandonadas pelos maridos e tem que criar os filhos sozinhas, são mais comuns, mas também à semelhança do pombos que são abandonados pelas esposas, encontramos alguns Homens-Pães, que fazem o duplo papel e criam os filhos sozinhos, conheci dois casos.
Quem não conhece casos de mulheres ricas que fogem na garupa do cavalo com rapaz pobre, driblam a jagunçada e vão se casar em lugar bem distante? Situação semelhante é a de mulheres brancas em contexto racista que fogem e até emigram para outro país, a fim de se casar com homens negros.
Nesse estudo fica a provocação segundo a qual a cultura humana, principalmente, no referente às formas de acasalamento e constituição de família, são reproduções das “culturas” de várias espécies e/ou raças animais.
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Este candidato a ensaio científico-literário foi influenciado pelas seguintes referências bibliográficas:
Linton, Ralph – ANTROPOLOGIA...
Autores Diversos – PANORAMA DA BIOLOGIA.
Autoras Diversas – O PODER DA MULHER...
Moris, Desmond Moris – O MACACO NU e A FAUNA HUMANA
Muitas Edições Televisadas da National Geografic Explorer, Discovery Channel e Globo Reporter, SBT Reporter, Fantástico Show da Vida, Domingo Espetacular e Planeta Selvagem.
Memórias das minhas observações dos comportamentos dos meus animais de estimação




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